Auto Exorcismo

Aquieta, coração.

Os invejosos vão sempre invejar

cada alegria, cada conquista e até mesmo a brisa

que bate no rosto de qualquer um.

Até mesmo as tristezas que te provam humano,

eles cobiçarão.

 

Aquieta, coração.

Os covardes sempre vão se acovardar.

Diante das verdades e vagos de razão,

eles se enfurecem.

Mas no fundo sabem:

não possuem em si a coragem

de admitir que perderam.

 

Aquieta, então.

Larga os orgulhos.

Apaga os planos de vingança.

Você sabe que esse ressentimento não te pertence.

Tal como na última cena de um filme do Fellini, sorri.

Sorri pra esse bando de filho da puta que não sabe ser feliz.

A semana de um passarinho

Um dia, no sítio, vi uma pedra caindo de uma árvore.

Cheguei mais perto e que surpresa: era um filhote de passarinho!

Meu avô, na época, era ainda bem disposto. Acordava cedo, fazia longas caminhadas e fumava como se tabaco nenhum fosse capaz de derrubá-lo (e pra dizer a verdade, nunca derrubou). Homem da natureza, pegou aquele bichinho feio nas mãos, como quem pega uma maçã. De olhos grandes e ainda fechados, piava um choro fraco, assustado.  Ele examinou sua asa, um pouco amassada.

-Vai levar uma semana pra ele ficar bom.

-Uma semana???

-Sabe quanto tempo leva uma semana?

-Não.

-Sete dias.

-Tudo isso?

Num movimento curto e certeiro, meu avô se ergueu na árvore e devolveu o passarinho ao seu ninho.

-Talvez a mãe não queira mais cuidar dele porque agora ele está com o cheiro da minha mão.

Coitado do passarinho, pensei. Queria pegá-lo de volta, já que mãe não ía querer mais. Como ele iria comer? Como iria aprender a voar? E se chovesse?

Mas eu não alcançava o galho alto onde morava o passarinho e não ía pedir pro meu avô pegá-lo de volta. Afinal, o que meu avô fazia, ninguém desfazia.

Uma semana era uma eternidade.

Ser abandonado por quem deveria te proteger, era impensável.

Não sei o que aconteceu com o passarinho. Talvez tenha vivido por muito tempo bem feliz. Talvez tenha morrido de fome ou virou comida de gato.

O tempo passou.

O sítio foi vendido.

Meu avô se foi. Mas não pelo cigarro. Nem por doença alguma. Apenas se foi, enquanto assistia a tv.

E eu, cresci.

Sete dias, hoje em dia, nem vejo passar.

Abandono faz parte da vida. Dói, mas não mata.

Meu avô já sabia.

corra

não espere dela

a doçura, a bondade, a verdade:

a promessa disso tudo dói.

 

sua fala é de sereia

sua tristeza é de filhote,

morde.

 

não jogue com os números

que ela sussurrar durante os sonhos:

são pesadelos.

 

corra,

antes que ela te comova,

antes que ela te corroa,

antes, corra.

O Sol, a razão e o suflê

O Sol se vai,

esvai-se o são.

O Sol se põe,

expõe-se um sopro

solto, suave e louco

de razão sem sol.

Sob a luz da lua

a sombra deixa de ser dura

a razão deixa de ser pura

vira tudo um sopro de razão suflê.

Água

Água aguda, do tipo que te desnuda
Água agora, no calor da tua hora
Essa água é mágoa
Rasga dos olhos
Lava a alma

V de Vingança e Vodka

Vinícius sentia-se pela primeira Vez na Vida, fora de si. Os pensamentos giravam rapidamente, orbitando, sem nunca pousar. Tudo porque ele nunca gostou de Vinganças e no entanto, Vingou-se. E um amargor de rícino tomou seu estômago assim que deixou a cama da mulher que não era a sua.

Antes de chegar ao carro, Vomitou. Não era só a culpa, molhada de Vodka. Algo havia se perdido e não seria possível reaver. E isso acabava com ele. Queria convencer a si mesmo de que tudo já estava perdido antes da Vingança. Mas no fundo, sabia que não estava. Entre o que acreditava e o que não queria acreditar, decidiu por bem, num desses rompantes masculinos, chutar o balde.

Ao chegar em casa continuou chutando, como quem chuta cachorro morto. Não era de falar alto, nem de pegar ninguém pelo braço e muito menos, responder com cinismo rancoroso. No entanto, agiu de todas essas maneiras com quem mais amava. Era tarde demais pra fingir arrependimento. Apesar de sentí-lo, verdadeiramente. Verdadeiramente.

Estava agitado, Virado, sem chão. Caiu sob uma mesa de tampo de Vidro e machucou o braço. Valentina o colocou no chuveiro. Não queria Vê-lo daquele jeito, nunca na Vida. Mas também não podia, só por isso, dizer “sim” ao seu irracional pedido. Tinham apenas Vinte anos.  E isso acabava com ela.

Vinícius nunca mais iria atrás de Vingança. Por ela perdeu a razão e com a razão, foi-se Valentina. Foi o que ele pensou. Mal sabia que um dia, como numa reVanche de amor, ainda a pediria em casamento outra Vez.

O tal retorno de saturno

você que está perto dos trinta já deve ter ouvido falar dele. o retorno de saturno.

uma espécie de tpm astral que dura um ano. 0 vigésimo nono.

legal, né?

segundo o google, saturno é longe.  é o último planeta que se pode ver a olho nu, tipo a última fronteira da via láctea (a olho nu).

tanto que enquanto a Terra demora 365 dias para dar uma volta completa em torno do Sol, saturno leva 29 anos.

daí que para os astrólogos, esse período simboliza o início da maturidade para nós seres humanos, ou seja, depois dos 29 nos tornamos realmente adultos. É como se depois da primeira rodada pela vida descobríssemos nossas limitações, perdêssemos as ilusões, derrubássemos a ficha.  E com o fim do retorno de saturno, teoricamente, estamos prontos para começar tudo de novo, desta vez, com mentes mais sábias e peles mais grossas.

eu devo estar no ápice desse negócio.

reavaliando a vida e achando que é hora de crescer, de mudar, de fazer acontecer. e ao mesmo tempo, me sentindo presa a algo que não sei o que é (talvez uma bola de ferro do tamanho de saturno)

neste sentido, quero muito fazer trinta.

assim como não gostava de ser criança e adorei ser adolescente, não gostei muito de ser moça e quero ser mulher.

sei que é bobagem imaginar que só por causa de um número sua vida vai mudar. mas é bom ter metas na vida com prazo definido. acho que essa é a minha promessa de ano novo pra 2011. ver a vida a olho nu.

estimo melhoras a minha pessoa e aos que gravitam em torno.

Antes de ter certeza

A fé popular é de que todo final é feliz.


Que o errado de agora será a pedra fundamental do certo, em algum futuro.

E que se as coisas não acabaram bem, é porque a história ainda não acabou.

 

OK. Vamos trabalhar com esta hipótese.

 

Mas o que fazer enquanto esperamos esse deus ex-machina se manifestar?

Como manter o monstro da ansiedade quieto enquanto nos movemos por esse labirinto invisível de esperanças e desilusões?

Antes de ter certeza que encontrou a saída você precisa fazer escolhas, abrir uma porta entre muitas, acreditar numa pessoa entre tantas e manter acesa uma fé que te levará muitas vezes ao nada.

É difícil negar, ando em areia movediça. Mesmo que às vezes eu corra, minha pista é lodo sem sentido.

Talvez seja uma idade difícil, 29. Não sou nova, nem velha. Tenho rugas que ninguém vê.

Não, eu não vou dizer que tudo se ajeita no final. Talvez eu viva num filme pantanoso de Lucrécia Martel.

As coisas que gostamos


Ele cachorro,

eu gato.

Ele Corinthians,

eu São Paulo.

Ele atum,

eu salmão.

Ele heavy metal,

eu Dave Matthews.

Ele Coca Zero,

eu Guaraná.

Ele realidade,

eu cinema.

Ele de preto,

eu de branco.

Someday, hopefully

fast as you can

Sempre te admirei mesmo quando te odiava.
E pensava, “merda! como ele escreve bem”.
De tudo que eu nunca quis possuir,
foi você quem chegou mais perto de eu querer.
E fiz tudo errado. Mas no fim foi o certo. Entendeu?
Entenderás?
Dentre tudo que eu não quis,
foi você  o que eu mais quis.

Exceto Andrea e Ana

Elas corriam, atrasadas por motivos diferentes mas empurradas pela mesma pressa. Encontraram-se no meio do pátio vazio. Só faltava subir o escadão. Haveria tempo. Mas ao constatarem a existência desse tempo, resolveram não subir.

Suas amigas estavam todas lá na capela. A esta altura vestidas com batas impecáveis. Em formação de coral. Cantando algo bem bonito para seus pais orgulhosos.

Andrea e Ana não se inscreveram pro coral. Não queriam cantar, não queriam rezar, não queriam se vestir bem. Não poderiam forçar sorrisos. Aquele era o dia da missa de formatura. E lá estavam elas, sujas e suadas demais pra parecer que não.

Foi uma conversa triste onde cada uma chorava seus problemas. Durante três anos elas haviam ajudado uma a outra com conselhos, conversas, abraços. Mas naquele dia, não. Andrea não ofereceu consolos a Ana e Ana tampouco soube o que dizer pra Andrea. Confessaram-se vazias, confusas, abatidas. Viviam o ápice de algo que aos poucos, dava pra ver, não era mais a adolescência. Perceberam alí que crescer era tão difícil que talvez não coubesse comemorar.  Ao invés disso morreram um pouco naquele lugar entorpecidas pela felicidade alheia. Tudo fedia a felicidade, exceto Andrea e Ana.

A força pra mover as circunstâncias não estava ali  com elas, não naquele dia.
Foram caminhando pra casa, cada uma com sua nuvem preta.

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Anos depois nos encontramos num aniversário. As duas felizes. Não aquela felicidade de final de filme, mas uma felicidade normal, de quem vive bem, sorri pra foto, come bolo e até repete. E sei lá por quê, lembramos daquele dia, sorrindo. Quando tudo que meu olhar tocava era solidão, exceto ela. Um pedacinho do mundo com quem fechei um silencioso pacto de amizade. Que ninguém viu, exceto Andrea e Ana.

abrir os olhos

Se você muda de emprego, namorado, amigos e continua infeliz, o problema vem de dentro e não de fora.

Simples, não?

NOT.

Porque gostamos de dar voltas no mesmo lugar.

De acreditar no bode expiatório que nós mesmos armamos.

De olhar pra uma só direção.

Abrir os olhos é difícil.

E se enxergar, pior ainda.

Quando começa?

Paulinho nasceu e foi vivendo. Aprendeu a andar, falar e tudo mais.

Foi pra  rua, pro parque e pra escola, onde conheceu novos amiguinhos. Muita gente diferente com ideias radicais. Como a Gabriela que sempre pinta as nuvens de verde na aula de Artes. Ou a Raquel que amarra os cadarços em volta das canelas. E tem também a Fernanda que todo recreio separa um pedacinho do lanche para alimentar as pombas do pátio.

Por que – do nada – uma delas passou a ser especial?

Alguém sabe quando começa o amor?

Acho que tem a ver com a perda da inocência. Porque dói.

Pode ser uma dor pequena como um corte de folha de papel ou uma dor grandona como um tapa na cara.

De qualquer jeito, Paulinho passará o resto da vida tentando curá-la. Na verdade, ele vai passar o resto da vida tentando fazer muitas outras coisas, como passar de ano, virar astronauta e viajar pra Disney. Mas agora, sempre, durante e por todos os advérbios de tempo, vai também procurar por uma cura que ele não sabe o que é.

E ele ficará muito feliz quando conseguir e muito triste quando ela doer de novo.

A dor avisa que alguma coisa mudou.

E isso não é triste, não.

Já que a dor vai existir no mundo de qualquer jeito, pelo menos achamos uma função pra ela.

Analogia BOBA

Felipão e Murtosa X Royal Tenenbaum e Pagoda

Uma máquina extraordinária

A explicação

A música

Sexo implícito

Quase todo domingo de madrugada é assim. O silêncio torturante da insônia é interrompido por algo ainda mais desconcertante: o sexo dos vizinhos.

As paredes trintonas de meu prédio são de um tempo em que os corredores eram largos, as varandas pequenas e os tijolos, impenetráveis. E mesmo assim, o som inconfundível vaza.

É sempre um gemido feminino. Ãhs ãhs ãhs ritmados e idênticos. Se me falarem que é uma gravação ou um ringtone de mau gosto eu acredito.

Seu par é mais discreto, nunca se pronuncia. Talvez seja um objeto – e a julgar por seus efeitos – de modo algum inanimado.

Ou ainda, tais agudos profundos podem pertencer a uma puta cujo taxímetro varia por decibéis.

Enfim, jaz aí mais um mistério sem solução dos que vivem sob a convivência anônima dos condomínios.

O que me incomoda

… é a falta de planejamento.

A certeza de que tudo se acerta.

De que a morte não existe.

Que os bons se dão bem no final.

Assistir de fora sem entrar em campo,

como o gandula da bola dos outros.

O silêncio de quem não sonha também me silencia.

Dando nome aos bois

Enquanto eu pondero se acordo a gata, tiro ela do meu colo e faço um café pra espantar o frio, a bichinha morde meu dedo.
E eu continuo com dó e não me levanto.
Daí eu me pergunto:
Eu sou o cachorro da minha gata?

Quadrilha pós-moderna

Queria escrever uma história cujo resumo fosse tipo a Quadrilha do Carlos Drummond de Andrade.

Só que o verbo amar seria substituído por vários outros.

E ninguém ía se suicidar.

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

O começo do amor

Quando a mãe enlouquecia, Fernanda corria pra casa do vizinho e lá ficava escondida. Tudo começou num dia em que ficou trancada pra fora de casa. Sentou na calçada por horas até que Paulinho vencesse a timidez e a desconfiança e a convidasse pra esperar em sua casa. O convite se tornou quase diário até enfim, não ser mais necessário.

Entre carrinhos de plástico e bolas de supermercado, Fernanda encontrava seu refúgio. No começo Paulinho não gostava de ter uma MENINA mexendo nas suas coisas mas com o tempo foi gostando de ensinar como virar figurinha no chão da sala e matar barata com uma chinelada só. Ela sujava sua roupinha de tanto brincar e no dia seguinte voltava impecável. Sempre com roupa de marca, sapato lustroso, fita no cabelo e até um relógio digital que engordava seu punho magro.

Paulinho não entendia: Por que você mora aqui se você é rica?

Ao que ela respondia: Já seeeei! Vamos jogar futebol, pular no gramado, fugir de casa, tomar yakult?

E ele sempre ía.

Só não ía na casa de Fernanda . Lá não dava pra brincar porque tudo era de cristal. Ai de quem quebrasse os elefantinhos de marfim, manchasse a parede recém-pintada ou derrubasse um quadro da parede. E sempre havia  o risco da mãe de Fernanda não estar num dia bom e envenenar com seus comentários austeros e baforadas de cigarro aquilo que poderia ser o começo do amor. Fora isso, o mundo era deles.