Um dia, no sítio, vi uma pedra caindo de uma árvore.

Cheguei mais perto e que surpresa: era um filhote de passarinho!

Meu avô, na época, era ainda bem disposto. Acordava cedo, fazia longas caminhadas e fumava como se tabaco nenhum fosse capaz de derrubá-lo (e pra dizer a verdade, nunca derrubou). Homem da natureza, pegou aquele bichinho feio nas mãos, como quem pega uma maçã. De olhos grandes e ainda fechados, piava um choro fraco, assustado.  Ele examinou sua asa, um pouco amassada.

-Vai levar uma semana pra ele ficar bom.

-Uma semana???

-Sabe quanto tempo leva uma semana?

-Não.

-Sete dias.

-Tudo isso?

Num movimento curto e certeiro, meu avô se ergueu na árvore e devolveu o passarinho ao seu ninho.

-Talvez a mãe não queira mais cuidar dele porque agora ele está com o cheiro da minha mão.

Coitado do passarinho, pensei. Queria pegá-lo de volta, já que mãe não ía querer mais. Como ele iria comer? Como iria aprender a voar? E se chovesse?

Mas eu não alcançava o galho alto onde morava o passarinho e não ía pedir pro meu avô pegá-lo de volta. Afinal, o que meu avô fazia, ninguém desfazia.

Uma semana era uma eternidade.

Ser abandonado por quem deveria te proteger, era impensável.

Não sei o que aconteceu com o passarinho. Talvez tenha vivido por muito tempo bem feliz. Talvez tenha morrido de fome ou virou comida de gato.

O tempo passou.

O sítio foi vendido.

Meu avô se foi. Mas não pelo cigarro. Nem por doença alguma. Apenas se foi, enquanto assistia a tv.

E eu, cresci.

Sete dias, hoje em dia, nem vejo passar.

Abandono faz parte da vida. Dói, mas não mata.

Meu avô já sabia.

Sobre ayagui

Paulista, ô meu.

Uma resposta »

  1. cassio bomfim disse:

    triste…

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