Paciente

Ela era muito paciente.

Aguentava a vontade de fazer xixi enquanto estava presa na fila do banco.

Ouvia papo de bêbado.

Usava internet discada.

Dava risadinhas educadas quando ouvia a velha piada do “é pra comê não é pavê”.

Não tinha TPM.

Um dia, implodiu.

Fim.

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Colar de Pílulas

Ela entra no banheiro furando a fila com a urgência de quem vai vomitar. Tudo sufoca. O calor suado da pista. Fios de cabelo caindo na testa.  O olho coçando. Tudo sufoca.

Vai até a pia, põe suas mãos embaixo da torneira aberta sem notar que outra pessoa está lavando as mãos alí mesmo. Joga uma água no rosto e encara o espelho. Ela tem olhos verdes amarelados, como os de gato arisco.

Daí é o colar que sufoca, com suas pérolas falsas coçando mais e mais a cada volta. Ela tenta tirar o colar por cima da cabeça mas está tudo embaraçado. Puxa de um lado, engancha no cabelo. Puxa de outro, voa um paetê da blusa. A bagunça aumenta e como tudo sufoca ela dá um puxão definitivo e arrebenta o colar. As pérolas se espalham todas pelo chão do banheiro.

Uma porta se abre e ela corre para o reservado. Ninguém na fila reclama dessa garota esquisita.

Entra Alaíde à sua procura. De repente todo mundo sumiu, a meia luz se fez inteira e a música ficou mais distante.

-Cássia?

Ninguém responde.

Como não é de perguntar duas vezes, Alaíde se abaixa, tentando ver pelo vão da porta de cada reservado. No chão antes coberto por pérolas, dezenas de pílulas coloridas se espalham. Finalmente se decide por uma das portas, levanta e abre a palma de dedos finos em frente ao trinco marcando ocupado. Com um gesto firme ela empurra a porta que se abre sem oferecer resistência.

Cássia está no chão, desmaiada ao lado do vaso, as pílulas bicolores aos seus pés. Alaíde senta na tampa do vaso e suspira.

-Antes vocês não tinham menos que 40 anos. Agora se estragam fácil, antes mesmo de aparentar o estrago. – olha para Cássia, encolhida como um bebê. Você, então…

Alaíde segura o rosto de Cássia como quem olha os dentes de um cavalo. Espreme seus lábios entre o polegar e os outros quatro dedos. Com a mão espalmada sobe em direção à testa, passando pelos olhos dela na direção contrária de quem quer cobrir as pálpebras de um morto.

Cássia acorda. Está sozinha num banheiro sujo, suado e barulhento. Alguém bate na porta com força, perguntando: Morreu aí dentro?!

Sapatinhos de Rubi

 

Ruby shoes by nike

Vou com meus tênis de rubi

pela trilha de tijolos amarelados

Vejo homens sem coragem e sem coração

sem cérebro e sem noção

Quero conhecer o Mágico de Oz

mas acabo em Ozasco :(

Encontrão

Estava entrando no metrô lotado quando uma garota esbarrou em mim com tudo. Apesar do encontrão certeiro, em nada me machucou. Não pisou no meu pé, não socou meu estômago.

Ao invés de fazer cara feia e sair bufando ela pôs as mãos na testa, cobrindo uma expressão de atriz de comédia romântica desastrada e disse: Aiiiinn… desculpa!

Antes de processar sua reação, já preparada para os esbarrões grosseiros do transporte público, respondi toscamente: Presta atenção! E fui embora.

Moça simpática da blusa roxa, me perdoa. É a aspereza do dia a dia que contamina a gente.

O segredo para toda felicidade do mundo

Deborah acorda e vai pra sala. Encontra Cássia na janela escancarada. Ela não olha a paisagem, olha pra cima.

-Oi.

Cássia se vira, seus olhos borrados de lápis preto estão mais vivos do que nunca. Ela sorri.

-Eu acho que encontrei. Vem.

Deborah se aproxima. Cássia põe o pé descalço no sofá, toma impulso e sobe na janela. Está com os dois pés no parapeito, elegante como uma ginasta em cima da barra. Uma ginasta alta, de cabelos sujos e soltos, calça jeans e olhos borrados.

Ela vira o corpo para Deborah, inclina a cabeça pra trás e se esforça para ler algo escrito no alto, nas paredes de fora do prédio.

-O segredo… – ela se inclina mais, pois o sol ofusca sua visão. O segredo para toda…

Os pés se movem paralelos, em busca do resto do enigma. É Cássia quem corre o risco de cair, mas é Deborah quem está tensa. Não tira os olhos da irmã e levanta os braços sem perceber, como se precisasse se equilibrar mesmo estando com os pés plantados no assoalho de madeira.

-O segredo para toda felicidade… Estou quase conseguindo! – diz, pulando de euforia.

Deborah vai até a janela enfim e olha pra baixo. Vê  a quadra esportiva de linhas quase apagadas e um parquinho com brinquedos de cores pálidas. O corpo de Cássia não combinaria em nada com este cenário. Seus cabelos pretos quase azuis, olhos azuis quase brancos e sangue vermelho quase preto, em tudo destoariam da paleta de cores aguadas do chão. Ainda assim, a cada passo, Deborah teme que Cássia encontre o concreto morno e dele não se separe mais.

-O segredo para toda felicidade… do mundo… é…

Os gatos

Não consigo ignorar nenhum gato.

Seja na rua, na praia, na fazenda, no parque. Seja de dono amigo ou desconhecido. Converso, faço carinho. Tiro do meio da rua e coloco na calçada. Abrigo os órfãos por uma noite ou duas. 

Quando um deles cruza meu caminho, digo ao menos um “psh psh psh” só pra chamar sua atenção. Infalível. Gatos adoram o som rasteiro que escapa entre os dentes semi-cerrados. “Psh psh psh” significa “olhe pra mim, vamos ser melhores amigos”. Os gatos sempre acreditam e depois de ouvirem este som, abanam o rabo e se aproximam, curiosos.

Será que existe um equivalente na linguagem humana?

Frases soltas

Ela se comunicava por frases soltas.

Pegava quem passava sempre desprevenido.

O marido indo na geladeira pegar uma cerveja. “Eles são vampiros que se alimentam de sangue de animais, não de humanos”.

A empregada passando aspirador no tapete felpudo. “A filha da tia dela é que foi morar nos Estados Unidos. Tinha 10 gatos na casa”.

A filha fumando escondido dentro do banheiro. “Não esquece que é amanhã, que precisa… coisar aquele negócio.. ou era terça?”

Não tinha o costume de olhar nos olhos quando falava. Só soltava frases soltas, sempre vidrada na tv.

Ninguém descobriu que vampiros eram estes que só sugavam sangue de animais. Nem quem tinha uma tia que tinha uma filha que foi morar numa casa cheia de gatos. Tampouco se lembram o que não poderiam esquecer, talvez na terça, talvez em qualquer outro dia.

Talvez ela estivesse mesmo falando com a tv.

Obsessão de 5 segundos

Num dia de calor sufocante caiu uma chuva de 5 segundos. Molhou o asfalto quente e transformou o bafo em ar respirável. Logo depois, olhei pela janela e o Sol já tinha secado qualquer rastro de água.

Naquele instante, eu vivia mais um momento de obsessão mental. Meus pensamentos se alternavam aleatoriamente entre palavras assim: Quando, Como, Por quê. Sempre acompanhadas de verbos conjugados  no futuro. Porque vez ou outra, assim como hoje, sou surpreendida por meus 5 segundos de obsessão com o futuro. Nestes momentos me interrogo, me cobro e me julgo. (E sabe) nunca ganho a causa.  Condenada a nunca saber como me resolver.

Mas aí os 5 segundos passam. Volto pra minha vida de horário pra pegar o ônibus, de salário pra guardar no fim do mês, da tarefa urgente de arrumar as gavetas e de happy hour no bar. Me recolho pro vazio do cotidiano e nele me aconchego como numa tarde preguiçosa de Sol.

Só pra tempos depois voltar a me questionar: Quando vou  me mexer? Quando vou mudar? Quando vou aprender? Quando essa obrigatoriedade de ser feliz vai deixar de ser um fardo?

Há alguns anos um amigo me disse que Deus sempre espera você estar pronto. Se é assim, só posso concluir, que há tempo pra tudo. Tempo pra lutar com todas as forças e tempo pra se esconder lambendo as feridas. Tempo de não entender nada e tempo de finalmente dar certeza. Tempo até pra descobrir como se vive essa loucura que a gente chama de vida.

Hoje quero me dar um conselho:

-Andrea, há tempo pra tudo.