Feliz Natal

Nesta época do ano meus avós sempre repetiam seus mesmos rituais.

Minha avó comprava um monte de panetone e embrulhava com capricho, como se fossem os presentes mais caros do mundo. Depois saía distribuindo a cada visita, tanto para os parentes e amigos quanto para o porteiro, a enfermeira do hospital e por aí vai.

Já meu avô nesta época estava ocupadíssimo com a tarefa, a cada ano mais árdua, de mandar cartões de Natal. Ele comprava um monte de cartões e papel de seda. Cortava o papel, colava dentro do cartão e escrevia mensagens em japonês, usando o alfabeto de kanjis. No ocidente esta bela caligrafia se tornou uma ótima desculpa pra fazer tatuagem mas no Japão é considerada uma verdadeira arte milenar. Meu avô gostava de acordar bem cedo pra fazer isso e tinha que fazer antes de fumar, assim as mãos tremiam menos.

Meus avós todo ano se entregavam aos seus rituais, espalhando carinho e dedicação por aí, com os gestos  mais simples que eles bem sabiam, eram os mais preciosos que poderiam existir.

Feliz  Natal!!!

Dublador

O pai do Antunes era o dublador oficial do Sylvester Stallone. Quando faleceu até saiu uma notinha no jornal. Ele dera voz brasileira à maioria dos machões do cinema americano como Burt Reynolds, Steven Seagal, Christopher Reeves… mas era lembrado mesmo pela voz do Stallone.

Seu cotidiano nada tinha a ver com os soldados revoltados, lutadores em busca de glória ou caçadores de kickboxers das telonas. Cuidava da voz como um bem precioso, evitava bebedeiras, não gostava da madrugada e nunca tomava chuva. Em casa estocava potes de mel e não admitia que falassem alto demais perto dele. Poderia danificar os tímpanos. 

Era muito culto, lia James Joyce, encomendava DVD´s raros do cineasta Alain Resnais e exigia dos filhos as maiores notas na escola. Quando se deparava com uma nota baixa no boletim, não dava bronca, e sim, debochava da falta de perspicácia da criança. Pode-se dizer que foi com essa técnica que ele fez Antunes se tornar um intelectual-acadêmico-mestre-doutor-pesquisador.  

Seu pai morreu há mais de 15 anos, mas ainda hoje, Antunes se pega olhando pra tv com lágrimas nos olhos quando por acaso se depara com uma reprise de algum filme do Sylvester Stallone. “A memória auditiva é uma coisa poderosa”, pensa. Mas no fundo, ele só queria que o pai tivesse sido mais parecido com o Rocky Balboa.

Mesmo assim

Ele tem o hábito repugnante de fumar no banheiro. Tira um cigarro, fuma, molha a ponta na água da torneira e deixa a bituca num cinzeiro que não sai de cima da pia. São várias bitucas nojentas acumuladas até finalmente a faxineira limpar o cinzeiro. Quando lavo meu rosto com a minha espuma importada comprada no freeshop sinto aquele aroma de tabaco úmido subir pela minha garganta e impregnar meus poros.

Mas eu o amo mesmo assim.

A grande viagem – Parte 2

Parte 1

Carlinhos achou engraçado ver o pai dormindo numa cama de solteiro, afinal, cama de adulto é cama de casal. Quando ele acordou, Carlinhos fingiu que ainda dormia mas logo ouviu uma voz carinhosa a sussurrar.

“Carlinhos, acorda… nós temos muita coisa pra fazer hoje”.

O menino abriu os olhos devagarinho e improvisou um bocejo bem falso.

Meio atrapalhado, o pai se viu pela primeira vez sem a assistência da esposa nestes assuntos matinais e  não sabia o que fazer primeiro.

“Tá com fome meu filho? Vamos descer pro restaurante e tomar aquele café da manhã! Põe o tênis. Não, primeiro vamos colocar uma roupa. Que camiseta você quer usar? Ah, mas você ainda não escovou o dente, vamos escovar os dentes.”

Por fim, checou o filho dos pés a cabeça: cabelo penteado, roupa limpa, cadarços amarrados.

“Vamos, Carlinhos?”

“Mas pai, você vai de cueca?”

Ele deu uma risada profunda, daquelas que só dava quando o filho mais velho, Juca, aprontava uma das suas. Na ansiedade de deixar Carlinhos pronto, esquecera de se arrumar. O rosto do menino se iluminou. Não era todo dia que se provocava o riso de um grande comediante.

Sem a concorrência bárbara existente numa casa com cinco irmãos, Carlinhos pode pela primeira vez, experimentar vários privilégios. Apertou sozinho o botão no elevador. Comeu apenas o que tinha vontade de comer. A pedido do pai escolheu qual carro alugariam naquele dia. Carlinhos escolheu um amarelo.

Eram enfim, dois solteiros prontos pra curtir a Disney. Foram 15 dias descobrindo os mais fantásticos brinquedos, nadando no parque aquático, admirando os pulos dos golfinhos, abraçando o Mickey e sua turma… Mas principalmente, 15 dias inteiros em que Carlinhos passou de mãos dadas com seu pai.

E que mudança esses dias provocaram! Depois de tanto gritar de emoção no barco viking, Carlinhos passou a falar alto, impostar a voz, cada palavra sua fluindo claramente. Depois de admirar a queima de fogos no castelo da Cinderella, Carlinhos se sentiu leve: não existia problema no mundo que um show tão bonito não pudesse levar embora. Finalmente na maior  montanha russa da Disney, ao lado de seu pai, Carlinhos não teve dúvidas e levantou os braços sem medo na hora que o trem passou pelo looping.  Admirado, o pai percebeu que o menino estava pronto pra encarar a vida de frente. A partir dessa viagem, Carlinhos mudou completamente: passou a se sentir importante.

Agradecimento

Mariana Blues de Márcio Yonamine

Eu abri este blog só pra colocar meus textos, nada de contar como foi meu dia ou reclamar da vida mas pelo menos este agradecimento preciso fazer.

Ontem chegou um presente super especial pelo correio, este livro aí de cima, Mariana Blues, do Márcio Yonamine.

Nos conhecemos na ECA quando eu estudava Audiovisual. Ele é o mentor do zine Amorosa Cia Pneumática (pra quem não viu, clique aqui), aliás, ele é mentor de muitas coisas, está sempre inventando novos projetos divertidos.

Adorei, é pra ler sorrindo!

Segue o blog dele, A Casa Invisível.

A grande viagem


O pai de Carlinhos era um grande comediante, mas Carlinhos, era uma criança triste.

A mãe, era uma modelo famosa, mas Carlinhos não era bonito.

Tinha quatro irmãos, dois mais velhos e dois mais novos. Juca era o engraçado, Marcelo era o peralta, Júlio era o bonito e Marcos era o inteligente. Carlinhos não era nada.

O pai fazia piadas, palhaçadas e de tudo brincava. Deu a ele um carrinho, um pônei, um walkman da sony. Pôs na aula de teatro, desenho, caratê… pra quê? Nada de Carlinhos se animar.

Até que um dia o pai veio com um papo diferente.

“Carlinhos, nós vamos fazer uma grande viagem. Só você e eu.”

“Carlinhos, falta uma semana pra nossa viagem. Nós vamos ficar 15 dias na Disneylândia.”

“E a sua mala, Carlinhos? Faz calor na Flórida, onde estão suas bermudas?”

Finalmente o grande dia chegou. Eles acordaram bem cedo, mais cedo do que a hora de ir pra escola. Enquanto os irmãos vestiam seus uniformes resmungando, a mãe de Carlinhos escolheu pra ele uma roupa bem colorida.

No saguão do aeroporto, Carlinhos só conseguia ver pernas de adultos bem compridas, passando pra lá e pra cá. Segurava a mão do pai com força, temendo se perder naquele mar de pernas sem rosto.

Aconteceu ainda na fila do check in. Depois de rodeá-lo como quem não quer nada, uma senhora de idade se aproximou com a filha que trazia a câmera fotográfica já em punho. Tinha os olhos arregalados e um sorriso bobo no rosto. Assim que o cumprimentou pelo nome já se colocou ao seu lado, pedindo pra bater a foto. O flash chamou a atenção dos presentes e de repente todos sabiam que o grande comediante estava lá. Vieram então umas moças mais novas, um grupinho de crianças e até os funcionários da companhia aérea que mesmo acostumados com a presença de artistas no aeroporto,  quiseram autógrafos. Todos chamavam a atenção do pai de Carlinhos e o garoto sumia, encolhido ao lado da bagagem.

continua…

Xadrez na Santa Cecília

No Largo da Santa Cecília há uma praça feia, bem na boca do metrô. Por lá circula de tudo: camelô, carrinho de hot dog,  estudante do mackenzie, médico da santa casa.

O que sempre me chama a atenção, destoantes, são os tabuleiros de damas. São duas mesas grudadas no chão, acompanhadas de banquinhos de concreto. As pedras não são pedras, são tampinhas de garrafa.

Os idosos que se reunem alí passam horas exercitando suas estratégias, munidos apenas de suas boinas e bengalas.

Em meio a travestis, alcóolatras e cachorrros abandonados eles inventam duelos, rezam pela sorte e vencem batalhas.

Bem alí, onde os mendigos já perderam a lucidez, a inteligência destes nobres senhores resiste.

Blogueiras

Os blogs andam com nomes cada vez mais criativos, só ficam atrás dos nomes de esmalte. Pensando nisso bolei uma brincadeirinha boba com todos os nomes de blogs (ou quase todos porque leio blogs compulsivamente) que acompanhei bastante este ano.

Querido Leitor,

Hoje vou assim usando um vestido carmim

conferir se Vende na farmácia

coisas que muito eu desejo:

blush, rímel e pão de queijo.

Fecho o superziper da calça e saio decidida,

mas perdi o fio da meada antes da saída

Não sei o que aconteceu,

nem que bicho me mordeu

mas esqueci os planos do dia de beauté

pois de repente pude perceber:

 Tô com Fome!

Fiz um sanduíche de ricota mas esquece,

essa Ricota não derrete

será que sobrou algum Petisco favorito

pra domar meus estômago arisco?

Se não sobrou, por favor, anote: o email do The Cookie Shop.

Divas – Inezita Barroso

Inezita Barroso, a diva

Inezita Barroso, a diva

Vocês vão achar que é brincadeira, mas eu realmente acho que a Inezita Barroso é uma diva!

Até 2004 passei minha vida ignorando sua existência mas tudo mudou quando fiz meu primeiro estágio na TV Cultura. Confesso que fiquei decepcionada ao saber que eu havia sido designada pra trabalhar no Viola, Minha Viola, programa de música caipira que tem um ano a mais de existência que eu! Este ano completou 29 anos no ar.

Nada daquilo tinha a ver comigo: não sabia qual era a diferença entre música raiz e sertaneja, não podia conter a risada com cada nome esdrúxulo de duplas que eu ouvia e meu diretor então, com seu fétido fumo de corda, era um caso a parte.

Mas eis que eu conheci a diva e aos poucos meus preconceitos foram por água abaixo. Lembro dela cantando no palco, com seus cílios postiços enormes e batom vermelho, soltando aquela voz retumbante que num instante, sabia se recolher e emocionar. As mãos octagenárias surpreendiam pela força que imprimiam em cada gesto. E os velhinhos humildes que sozinhos atravessavam a cidade inteira para vê-la choravam de verdade, lembrando de algum tempo antigo em que foram felizes. Você já viu 100 velhinhos juntos chorando ao mesmo tempo? Não é um feito para se respeitar?

Inezita gata na juventude

Inezita não nasceu no campo, ao contrário, foi criada numa família aristocrática da Barra Funda, dona de muitas fazendas de café. Desde criança estudou violão, viola e piano. Além de ser cantora, atriz e apresentadora, ela também se formou em Biblioteconomia na USP e em meio aos livros sobre folclore, se apaixonou ainda mais pela cultura popular do Brasil. Inezita em si é uma biblioteca, conhece todas as músicas de raiz e sabe quem são seus autores de cor.

Eu sempre recebia cartinhas na produção com perguntas sobre músicas antigas, ou melhor, fragmentos de canções escritas em linhas bem tortas. Inezita sempre matava a charada na hora, cantava a música toda e contava a história de sua composição. E lá ia eu toda feliz, responder a cartinha com informações que nem o Google seria capaz de encontrar.

Não é a toa que com sua memória de elefante, Inezita até hoje dá aulas de folclore em duas faculdade de turismo. Além disso ela grava toda semana um programa de rádio e o programa de tv. No ano em que eu estava lá ela desfilou por duas escolas de samba, uma delas, a Gaviões da Fiel (Inezita é corintiana convicta). Que energia!
Como toda diva deve ser, na minha opinião, Inezita também tinha um apetite voraz, adorava pizza de queijo e não dispensava a marvada pinga. Em tudo eu admiro Inezita, tanto a figura pública quanto a privada que tive o privilégio de conhecer e conviver, pelo menos por 6 meses. Os meses em que aprendi o que era televisão.

Quando comecei a gostar de bailarinas?

Na minha infância eu odiava bailarinas. Aliás, odiava ser criança e queria crescer logo pra ser dona do meu nariz. Achava falsa aquela delicadeza toda e a rigidez dos gestos parecia fruto de uma disciplina chata e sem fim. Eu que nem roupa branca podia usar pois sujava tudo num segundo nunca tive aquele sonho de vestir o tutu e a sapatilha de cetim. Achava tudo rosa demais. Eu não penteava o cabelo, não usava saia nem vestido e odiava comprar roupas. Basicamente eu tomava banho e escovava os dentes.

Do alto dos meus quase 30 anos, tudo mudou. Outro dia entrei num Mc Donalds e vi duas garotinhas na fila com roupinhas de princesa e sapatilhas nos pés. Tinham os cabelos bem presos e cheios de gel com glitter. Cada uma usava um vestidinho diferente mas os dois com saias bem rodadas, armadas pelo tule. De mãos dadas, elas relembravam saltitantes cada passo da coreografia que pelo jeito havia sido um sucesso. Achei uma graça. Porque afinal bailarinas são graciosas, ainda mais assim, tão felizes de seus feitos. Da perna que esticou até aonde precisava ir. Do ombro que se manteve na postura certa. Dos pulinhos certos na hora exata e sei lá mais o quê. Imagino que sendo tão pequenas as garotas devem ter feito tudo meio errado, sem equilíbrio, olhando de canto pra professora. E mesmo assim (talvez até por isso mesmo) deve ter sido uma graça.

Quando comecei a gostar de bailarinas?
Acho que foi quando percebi que tinha virado adulta. Quando comecei a gastar mais de 20 minutos pra escolher minha roupa de manhã. Quando comecei a usar maquiagem pra não ficar com cara de doente. E claro, ao perceber que a rotina do adulto é a coisa mais chata do mundo. Minha saudade de ser menina é que me faz sorrir ao ver essas garotinhas. Fantasiadas de princesas, imaginando um mundo cor de rosa onde sempre haverá um palco pra elas subirem e serem aplaudidas.

Mais amorosa

Eu sei quem é o admirador secreto, mas ainda não contei pra ninguém.

Mais uma página do zine Amorosa Cia Pneumática.  Lembro que essa foto eu recortei da revista Veja.Ela ilustrava uma reportagem sobre uma nova tendência entre os jovens europeus, a preferência pela qualidade de vida em detrimento de carreiras meteóricas. Muitos deles estavam preferindo um estilo de vida mais tranquilo, de pequenos prazeres e horários flexíveis e assim, fazendo menos cursos de pós-graduação por exemplo. Realmente, se você não vive em situação de miséria e os serviços públicos do país são bons, é melhor desencanar e curtir a vida, não?

Office Fúria – Parte 3

Parte 1

Parte 2

Raquel se sentia culpada como nunca. Pobre Gordinho! Sua pressão baixou com o calor e ele desmaiou! O martelo da vergonha parecia estar ainda mais pesado em sua bolsa. Relembrava cada martelada no ar condicionado e cada uma delas parecia doer em sua própria cabeça.  Além da culpa ela se sentia agora, impotente. Usou toda sua força e astúcia pra resolver o embate, mas fora vencida pela fragilidade do colega. Ele precisava mesmo viver no frio congelante, afinal. Não era birra nem frescura.

No pronto-socorro ela esperou todos irem embora para chegar do seu lado e dizer, seco e curto.

-Fui eu. Quebrei o ar condicionado de propósito.

Seus olhinhos pequenos como duas azeitonas solitárias numa pizza família piscaram várias vezes.

-Tudo bem, eu guardo segredo. Eu também já pensei em quebrar o ar, mas pra ficar frio e não quente.

Ela nunca tinha reparado, mas olhando bem dentro dos olhos do Gordinho havia uma criança. Aquela que passa o recreio sozinha e nunca é escolhido pro time de futebol. Resolveu então que agora passaria a chamá-lo de Geraldinho. Passaram a tarde toda conversando, tentando encontrar uma solução pra diferença corpórea de cada um.

Agora a situação está melhor no escritório. O ar condicionado fica numa temperatura média e Geraldinho ganhou o seu próprio ventilador. Vez ou outra Raquel e Geraldinho até saem juntos pra almoçar e um dos assuntos preferidos é difamar a intragável da Helena. Um dia ainda vão descobrir como se livrar dela, mas não será com um martelo.

Office Fúria – Parte 2

Clique aqui para ler a Parte 1

Raquel acordou às 5 da manhã e seguiu para o escritório ainda no escuro, levando na Louis Vitton falsificada uma arma. A Vila Olímpia estava irreconhecível, sem carros, sem pessoas apressadas, sem camelôs. Um ou outro bêbado cambaleava por aí tentando voltar pra casa depois de um happy hour bem prolongad0. Raquel sentiu uma estranha paz no coração mas sabia que não havia muito tempo antes daquele paraíso se transformar num verdadeiro inferno.

Foi a primeira a acender a luz do escritório. Colocou uma cadeira embaixo da parede do velho ar condicionado. Tirou os sapatos dos pés e da bolsa surgiu o perigoso objeto que faria seu plano se realizar: um martelo. Subiu, girou o controle até uma temperatura mais agradável e depois,  pôs se a martelar o botão, até finalmente arrancá-lo. Agora ninguém mais poderia mudar a temperatura.

Foi só voltando do almoço que Raquel pode realmente saborear sua vitória. Sentou em seu lugar, com um sorvete de limão, e de lá ficou a observar o Gordo das Finanças. Ele suava, bufava, derretia. Tinha passado boa parte da manhã tentando descobrir o que estava errado com o ar. Quando percebeu que o botão tinha sumido passou a procurá-lo embaixo das mesas, dentro do lixo, sob o tapete. Perguntou 5 vezes pra mesma faxineira se ela havia visto o botão e claro, nada.

De repente o Gordo das Finanças levantou repentinamente mas imediatamente se jogou na cadeira novamente. Estava passando mal, muito mal. De sua boca caía um líquido viscoso, branco. Seus olhos se voltaram pra cima e ele perdeu a consciência.

Matei o Banha! – pensou Raquel – enquanto ligava pro médico.

Parte 3

Office Fúria

Raquel enfrentava um dia de trânsito na Vila Olímpia, o bairro comercial mais populoso de São Paulo. Pensava ela: “Benditos aqueles que nunca, sob quatro rodas, tentaram percorrer as vias da Vila Olímpia”. Raquel cordenava os avanços lentos de seu carro com os gritos do senhor Amarindo ao telefone enquanto tentava abrir uma pasta de documentos no banco traseiro. Claro que o marronzinho viu e passou a caneta. Mas nem concentração pra se lamentar ela tinha pois no seu ouvido bradava o senhor Amarindo, ocupando todo o espaço de seu cérebro com reclamações quanto ao seu atraso pra importante reunião. Faltava uma mosca pousar em sua testa suada pra ela sair do carro quebrando tudo com um taco de beisebol.

Enfim chegou, estacionou, subiu.

Assim que pisou na sala um frio cortante gelou sua espinha. Tudo culpa do Gordo das Finanças que todo dia colocava o ar condicionado no nível mais frio. Há algumas semanas Raquel havia tentado negociar uma temperatura mais amena mas o Gordo foi irredutível. A cada embate, ela lhe arranjava um novo nome, com o qual se deliciava cruelmente nos seus pensamentos mais íntimos. De Geraldo foi pra Gordinho das Finanças e de Gordinho das Finanças (o que ainda conferia certo carinho) passou a ser o Gordo, sem inho algum. Se tivesse tempo teria mudado o nome de seu inimigo novamente, talvez pra Escroto do Ar Condicionado ou apenas Banha.

Correu até sua mesa, a estagiária atrás com um copo de café, avisando que a reunião já havia começado.  Tentou encontrar seu caderno de anotações e o relatório que tinha guardado na sua gaveta mas eles haviam sumido. Temendo sua reação, a estagiária avisou timidamente: Helena pegou tudo e já levou pra reunião.  Raquel se indignou de tamanha maneira com o atrevimento da colega que derrubou litros de café em seu casaco branco. Agora teria que passar frio o dia inteiro. Helena também estava precisando de um novo apelido.

Então, a reunião foi péssima. Helena ficou lá dando show, repetindo cada insight inteligente que Raquel anotara em seu caderno. Explicando o óbvio já descrito em cada slide que ela havia preparado. E Raquel entrou atrasada na reunião e ficou num canto sentindo frio e sendo julgada por todos como “a atrasada”.

Ao sair, ficou 40 minutos presa numa ruazinha que dava acesso à Avenida Juscelino Kubistchek. Observando um muro do outro lado da calçada, avistou uma frase pixada: Você é escravo do trânsito.

Raquel pensou: amanhã tudo vai mudar.

Parte 2

Companheira de Cela

Fabiana era uma ótima companheira de cela. Éramos só nós duas naquele pequeno espaço frio. Ela foi transferida antes de mim e pelo que me contava, tivera problemas com uma colega paranóica. Às vezes as pessoas não entendem que estão confinadas, principalmente as mulheres. A tal colega vivia querendo saber o que o ex-marido andava fazendo lá fora. Chegou ao cúmulo até de pedir que alguém lhe trouxesse um fio de cabelo do amado para despachar uma macumba. Estressada com os arroubos histéricos constantes em que se via envolvida Fabiana rezava por uma transferência e quando ela veio, foi um alívio só. Afinal, até na prisão é preciso ter alguma sanidade.

Fabiana era uma ótima companheira de cela. Sempre cheia de “bom dia” e “como vai”. Do tipo que te chama de “querida” sem soar falso. Que liga pra mãe todos os dias e a trata como se fosse sua própria  filha. Dividia  qualquer lanche especial que descolava. E por pior que as coisas estivessem, ela sempre me chamava de flor. Outra qualidade difícil de encontrar é que tinha timing para as conversas. Sabia quando ficar quieta mas também sabia quando o papo podia se prolongar. Falávamos sobre namorados, gatos, irmãos, comidas preferidas…

Há uns 6 meses não a vejo, desde que precisei sair do emprego. Deixei meu lugar na pequena sala que dividia com Fabiana numa das muitas produtoras de vídeo de São Paulo.  A monotonia sempre dá as caras, até nos empregos mais legais do mundo, seja por algumas horas ou por todas elas. Por isso é tão importante ter companheiras de cela como a Fabiana.

Puxa, que saudade.

Ver filme no cinema

Eu gosto de ver filme no cinema, na sala escura cheia de gente.

Principalmente esses filmes que sabem mexer com a emoção das pessoas.

Lá pelo meio da história, quando todos já se afeiçoaram ao mocinho mas ainda não sabem como ele vai chegar ao final feliz, gosto de olhar para a cara das pessoas ao meu lado. Essa gente desconhecida, por algum momento esboça a mesma expressão, ao mesmo tempo.

Quando Jennifer Aniston perdeu o bebê em Marley e Eu o cinema todo soluçava. As mulheres assoavam o nariz e os homens baixavam os olhos como se estivessem com dor de cabeça.

Persepolis

Na sala lotada de Persépolis, em plena Mostra Internacional de Cinema, a tensão pairava no ar, como se estivéssemos vivendo no Irã, aprisionados numa burca que se abria de vez em quando, nos inteligentes alívios cômicos do filme.

Posso jurar que em O Curioso Caso de Benjamin Button o encantamento nos olhos da plateia fazia parecer que todos estavam regredindo pra infância.

E naquela primeira cena de Bastardos Inglórios, estamos todos embaixo das tábuas frouxas daquela casinha francesa, escondidos juntos com os judeus, tentando não fazer barulho enquanto o nazista faz sua inspeção.

Bastardos Inglórios

Uma vez assistindo a um filme de terror dei um grito bem alto que todo mundo ouviu. O filme nem era bom, apenas explorava a maneira mais fácil de assustar, com um monstro aparecendo de repente na tela no exato segundo em que a música se torna capaz de estourar tímpanos. Nunca mais vi filme de terror em tela grande.

No sofá de casa a gente não sente essas coisas.

Amorosa Cia Pneumática

Uma das coisas mais divertidas que fiz na época da faculdade foi um zine chamado Amorosa Companhia Pneumática. Éramos 4 editores, eu, Márcio, Fudge e André, mas recebíamos colaborações de quem quisesse participar. Acho que as edições saíam a cada 15 dias e apesar de terem sido apenas 5 (gloriosas edições), rolaram muitas coisas bacanas. O zine tinha o tamanho de um sexto de folha sulfite, era ótimo pra levar no bolso, ler e passar pra frente. As cópias eram feitas no xerox mesmo, em preto e branco, mas não lembro bem quantas a gente tirava (alguém aí se lembra?). O objetivo do zine eram bem singelo, era feito pra ser dado de presente. Acho que a  ideia principal era surpreender alguém que você gosta com um livrinho cheio de frases e imagens poéticas. Não me lembro bem na verdade, o filósofo do grupo era o Márcio. Eu ía mais pela diversão.

Depois da versão em papel colocávamos tudo num site que já não existe mais. Lembro que era feito na mão, em html. Salvei alguns arquivos, segue abaixo um dos primeiros que fiz.

A gata que chamava gata

 

Gata, a gata

Minha gata não tem nome. Tem vários apelidos, mas nome mesmo, nunca teve.

Ela é a sexta gata que eu tenho, mas a primeira sem nome. Na  época em que seria sensato batizá-la a experiência dos felinos anteriores me fez perceber que nenhum deles, nunca, atendeu pelo nome próprio. Coisa de gato.  Pensei então que o nome dos gatos serve somente para nosso próprio benefício. Os gatos mesmo, que deveriam ser os maiores interessados, tão nem aí. Daí não sugeri nenhum nome e ninguém de casa sugeriu também.

A gata sem nome é branca e marrom e tem olhos azuis. Não gosta de colo e mia bastante, olhando nos olhos, como se conversasse. Ela também não gosta de dormir perto do rosto da gente, prefere se aconchegar nos nossos pés. Ela sabe dar a pata, mas só a direita. E adora ser penteada. A-do-ra. Mas não a provoque, quando fica irritada, ela morde.

Assim é a gatinha sem nome  que dele nunca sentiu falta. Outro dia me ocorreu um nome perfeito: Madame. Mas creio que agora já é tarde demais.

Meu colega, o Hermes

O Hermes saiu da aposentadoria há alguns anos. Foi chamado pra trabalhar como escritor aqui em São Paulo. Vestiu o conjunto verde que sempre lhe caiu tão bem e se mandou do Rio Grande do Sul.

Chegou na velocidade dos correios.

Apareceu meio sem jeito e encontrou seu canto entre outros colegas mais jovens e descolados. Rapidamente Hermes mostrou que os anos de aposentadoria em nada afetaram seus anos de experiência. Os textos levavam mais tempo pra ficarem prontos, afinal, eram feitos à maneira antiga. Hermes não usava nada que se ligasse na tomada. Mas a literatura que fluía de suas mãos era inigualável.

A gramática era perfeita, revisada exaustivamente. Resultado de uma certa insegurança de Hermes, na verdade. Seus dedos tremiam um pouco e às vezes teclavam nas letras erradas. Sua clareza de ideias, nesses tempos de esquizofrenia desvairada da literatura de blog, descia bem pela garganta. Hermes tinha ainda outros segredos, era poeta! Mas não desses exibidos. Sua poesia fluía no texto, quase imperceptível, mas ainda assim, bastante agradável.

Hermes era calado, mas quantas histórias tinha pra contar.

Este é o Hermes B.