Office Fúria

Raquel enfrentava um dia de trânsito na Vila Olímpia, o bairro comercial mais populoso de São Paulo. Pensava ela: “Benditos aqueles que nunca, sob quatro rodas, tentaram percorrer as vias da Vila Olímpia”. Raquel cordenava os avanços lentos de seu carro com os gritos do senhor Amarindo ao telefone enquanto tentava abrir uma pasta de documentos no banco traseiro. Claro que o marronzinho viu e passou a caneta. Mas nem concentração pra se lamentar ela tinha pois no seu ouvido bradava o senhor Amarindo, ocupando todo o espaço de seu cérebro com reclamações quanto ao seu atraso pra importante reunião. Faltava uma mosca pousar em sua testa suada pra ela sair do carro quebrando tudo com um taco de beisebol.

Enfim chegou, estacionou, subiu.

Assim que pisou na sala um frio cortante gelou sua espinha. Tudo culpa do Gordo das Finanças que todo dia colocava o ar condicionado no nível mais frio. Há algumas semanas Raquel havia tentado negociar uma temperatura mais amena mas o Gordo foi irredutível. A cada embate, ela lhe arranjava um novo nome, com o qual se deliciava cruelmente nos seus pensamentos mais íntimos. De Geraldo foi pra Gordinho das Finanças e de Gordinho das Finanças (o que ainda conferia certo carinho) passou a ser o Gordo, sem inho algum. Se tivesse tempo teria mudado o nome de seu inimigo novamente, talvez pra Escroto do Ar Condicionado ou apenas Banha.

Correu até sua mesa, a estagiária atrás com um copo de café, avisando que a reunião já havia começado.  Tentou encontrar seu caderno de anotações e o relatório que tinha guardado na sua gaveta mas eles haviam sumido. Temendo sua reação, a estagiária avisou timidamente: Helena pegou tudo e já levou pra reunião.  Raquel se indignou de tamanha maneira com o atrevimento da colega que derrubou litros de café em seu casaco branco. Agora teria que passar frio o dia inteiro. Helena também estava precisando de um novo apelido.

Então, a reunião foi péssima. Helena ficou lá dando show, repetindo cada insight inteligente que Raquel anotara em seu caderno. Explicando o óbvio já descrito em cada slide que ela havia preparado. E Raquel entrou atrasada na reunião e ficou num canto sentindo frio e sendo julgada por todos como “a atrasada”.

Ao sair, ficou 40 minutos presa numa ruazinha que dava acesso à Avenida Juscelino Kubistchek. Observando um muro do outro lado da calçada, avistou uma frase pixada: Você é escravo do trânsito.

Raquel pensou: amanhã tudo vai mudar.

Parte 2

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