Estagiários profissionais

Carregando a TV since Chacrinha

Os anúncios de oportunidade de estágio pra área de TV/Cinema são tragicômicos. O menino/menina precisa ter conhecimento de vários softwares, disponibilidade pra trabalhar em horários malucos, falar inglês ou francês e muitas vezes, principalmente quando a vaga é na área de produção, exige-se que tenha carro. Essa aliás, é a pista de que o trabalho vai ser sacal pois com o seu carrinho você vai buscar lata de filme na PQP, deixar figurino na casa da atriz, buscar o almoço da equipe inteira etc. Claro que o salário/bolsa é muito menor do que o de um estagiário de administração por exemplo, que trabalha 6 horas por dia no ar condicionado. Já vi até gente que desistiu da profissão depois de muito penar em produtoras mambembes.

Realtivamente, eu tive sorte, fiz estágio em duas emissoras grandes. Numa delas até rolou uma exploraçãozinha mas na outra foi bem tranquilo, tinha horário certinho e vários benefícios, como todo estágio normal das outras áreas.

Apesar dos pesares, sei que as coisas são assim e no mundo real não dá pra ter uma boa formação sem passar por isso. Aprende-se, pega-se ritmo de trabalho e faz-se muitos contatos importantes. A maioria dos meus empregos consegui através de contatos que fiz durante o estágio. Mas no fim, a conclusão é:

Estágio: ainda bem que um dia acaba.

Nem sempre o amor é cega

Hoje no metrô me deparei com a cena do post passado. O atendente do metrô estava guiando uma mocinha cega bem na minha frente. Eles desceram as escadas e na plataforma ele passou o braço dela pra um outro atendente que a levou até o vagão.

O primeiro atendente não conversava com ela. Não avisou nenhuma vez que o degrau ía acabar e pra falar a verdade, estava com uma cara de tédio. E o pior, quando foi passá-la pro outro ficou gesticulando e sussurrando, como se a cega não escutasse.  

Custa as pessoas serem mais gentis e fofas como nos posts de ficção?

O amor é cega

Todo dia a moça aparecia no metrô às 8:13. Tinha vários óculos escuros diferentes mas neste dia estava com o preferido do atendente do metrô: o de aros vermelhos. Vinha batendo sua bengalinha no chão e parava na frente da catraca do canto esquerdo. O atendente já esperava por ela, pegava sua mão com delicadeza e posicionava em seu braço. Passava com ela pela catraca, descia as escadas, esperava pelo vagão. De vez em quando brincava: “Vai pra Barra Funda hoje?” Ela sempre ía pra Barra Funda. Depois de colocá-la pra dentro acionava o rádio, avisando na estação de destino que a mocinha cega estava chegando.

Este era o momento preferido do atendente. Até começara a passar perfume antes de sair de casa. Mal sabia que ela poderia, literalmente, descer até o vagão de olhos fechados. Ela sabe a distância da catraca só de ouví-la rodar. Sabe que precisa contar 43 degraus pra descer toda a escada. E o chão da plataforma muda de textura quando ela se aproxima do vão. 

Mas ela gosta de ser conduzida pela mão quente e perfumada do rapaz do metrô.

A espera de Kenson

Kenson cansou de esperar em vão. Enfim, se conformou: o amor não vai acontecer desta vez.

Seu rosto não se iluminará nem seu peito se encherá de alegria ao olhar pra Teca num dia qualquer. Os beijos dela não ficarão melhores de um segundo pro outro porque o desejo não se faz como a chama de um isqueiro. Não neste caso.

Sua companhia não se tornará enfim irresistível. Teca pode se ausentar de repente, dar a volta ao mundo três vezes, entrar em coma e despertar miraculosamente. Nem assim Kenson sentirá saudades.

Ele cansou de esperar o dia em que finalmente olhará para Teca depois de inúmeros encontros fulgazes e resolverá transformá-la em sua escolhida. Apresentá-la aos amigos. Pensar no futuro. Este dia nunca chegará.

Aplicado em sua estatística sentimental, Kenson dá ao papo de Teca sua maior nota. Mas a matemática nada tem a ver com essa busca desenfreada por um je ne sais quoi que não se revela.

“Quer um papo bom? Namore um pelicano.” A frase absurda pipocou em sua cabeça. Apagou o telefone de Teca e seguiu a vida sem olhar pra trás.

Kenson cansou de esperar em vão pelo amor que nunca chega.

Mas um dia ele vai chegar.

Não diga isso

Algumas frases não devem ser ditas. “Ou eu ou ela” é uma delas. Não deixa de ser um questionamento válido mas colocá-lo pra fora demonstra uma insegurança tal que é melhor deixar quieto.  

Quando criança, numa dessas picuinhas de meninas, uma amiguinha me colocou em xeque. “Ou ela ou eu”. Não tinha ainda nenhum apego maior à outra, mas só por causa da pergunta impertinente, eu a preferi. E somos melhores amigas até hoje, veja só.

Porque quando você manda alguém escolher “ou ela ou eu”, tenta exercer uma forma de poder e censura que só uma barata tonta pode aceitar. Somos obrigados a bater o pé desde pequenos pra dizer: Você não manda em mim.

Então por favor, seja menos um chato nesta vida. Ao invés de “Ou eu ou ela” diga “sou mais eu”.

A máquina dos sonhos

Acordou no meio de uma inspiração. O ar ficou retido nos pulmões até ela finalmente perceber que estava em sua cama. Expirou. O sonho tinha terminado.

Ainda com suor no rosto Verônica se sentou. Pegou o bloco de papel e a caneta que havia deixado na cabeceira e apenas sob a luz do luar que se esgueirava pela janela, escreveu: MORTE. Mas a tinta da caneta não saiu, deixando apenas um relevo fundo marcado a força. A caneta não estava pegando. Abriu a gaveta com pressa, pegou outra caneta e nada, também sem tinta.

Levantou num pulo e correu pro quarto antigo da sua meia irmã, Valquíria.  Desviando de caixas fechadas e de uma cama sem colchão encontrou uma escrivaninha cheia de papeis e revistas amontoados. Pegou um lápis, mas estava sem ponta. Eis que avistou embaixo de toda aquela bagunça uma antiga máquina de escrever. Uma “Hermes Baby portátil” como costumava dizer sua irmã, cheia de pompa. Verônica destacou a folha do bloco e a colocou na máquina. Logo o ruído certeiro de suas teclas cortava o silêncio da madrugada. Escreveu:

MORTE.

Era tudo que lembrava depos da caça às canetas. Continuou dedilhando a MORTE a esmo até que de repente, como se tomados de uma força exterior, os dedos começaram a formar palavras diferentes.

AZULEJOS PRETOS E BRANCOS

PÁSSARO VOANDO

AONDE ESTÁ

VALQUÍRIA

Verônica tirou o papel da máquina e releu. Não se lembrava mais de ter sonhado aquilo.

É grave, doutor?

Eram 3 metros quadrados que ficavam ainda menores com os inúmeros objetos espalhados aleatoriamente pela sala. A doutora Cândida mantinha sua postura fleumática e voz suave, sem notar o caos em que vivia instalada, entre cadernos e canetas, anjos de vidro e elefantes de resina, pegadores de sonho e mandalas. Verônica observava uma fila de matrioshkas que  diminuia progressivamente ao longo de uma prateleira. O fato de uma se encaixar perfeitamente dentro da outra era uma ideia hiptonizante para ela.

-Verônica? Então, me diga… Que sonhos são esses que vêm te perturbando?

-O problema é esse… eu não consigo lembrar! Eu acordo angustiada, às vezes até gritando… demoro a dormir pensando no sonho… mas no dia seguinte, já esqueci tudo.

-Você não se lembra de nada, nenhuma imagem, nenhum som? Qualquer coisa pode ajudar. 

-Nada mesmo. Só tenho essa sensação de que eu vi algo muito horrível, mas não sei o que é. 

-Por que você não faz o seguinte: antes de dormir deixe ao lado da cama um bloco de papel e uma caneta. Assim que você acordar de mais um sonho, anote tudo que você se lembra, sem pestanejar. Escreva mesmo se à princípio parecer sem sentido. Com certeza isso vai te ajudar.

-Na verdade, eu queria que você me ajudasse a parar de ter esses sonhos.

-Por quê? Os sonhos trazem mensagens importantes, não se deve ignorá-los.

-Eu tenho medo do que posso descobrir. Às vezes eu acho que existe outra dentro de mim.

Clarice e sua Olympia

Clarice Lispetor e sua Olympia portátil

Em 2007 visitei o Museu da Língua Portuguesa cujo tema da temporada era a Clarice Lispector. Lá comprei um manual fantástico da exposição, com fotos e textos que fizeram parte dela. Me identifiquei muito com um trecho onde Clarice descreve claramente sua relação com a máquina de escrever. Obviamente que eu não uso a máquina toda hora, eu sou do tempo do computador, mas entendo por que ela prefere uma máquina ao lápis. Segue:

“Uso uma máquina de escrever portátil Olympia que é leve bastante para o meu estranho hábito: o de escrever com a máquina no colo. Corre bem, corre suave. Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra. Por assim dizer provoca meus sentimentos e pensamentos. E ajuda-me como uma pessoa. E não me sinto mecanizada por usar máquina. Inclusive parece (?) captar sutilezas. Além de que, através dela, sai logo impresso o que escrevo, o que me torna mais objetiva. O ruído baixo de seu teclado acompanha discretamente a solidão de quem escreve. Eu gostaria de dar um presente à minha máquina. Mas o que se pode dar a uma coisa que modestamente se mantém como coisa, sem a pretensão de se tornar humana? Essa tendência atual de elogiar as pessoas dizendo que são muito humanas está-me cansando. Em geral esse humano está querendo dizer bonzinho, afável, senão meloso. E é isso tudo o que a máquina não tem. Sequer a vontade de se tornar um robô sinto nela. Mantém-se na sua função, e satisfeita. O que me dá também satisfação.”

Que lucidez pra descrever algo tão ininteligível! “Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra” é genial.

Uma relação estranha

Verônica amava sua irmã mais nova mas também a odiava. 

Às vezes desejava sua morte. Fantasiava um acontecimento abrupto, um acidente de carro, uma pausa respiratória na calada da noite, um vírus misterioso que ninguém conhecia. Mas bastava a irmã machucar o joelho que lá ía Verônica chorar também.

Ensinou quais eram os autores bons de ler e a irmã acreditava cegamente no gosto da mais velha, devorando livros. Mas quando a pequena recebia nota 10 em redação, Verônica se remoía de inveja.

Não aceitava o fato de que a irmã crescera com um pai, uma mãe, uma irmã mais velha e um cachorro, pois Verônica não teve nada disso. Não gostava quando diziam que eram parecidas mas via nela uma versão mais nova e alegre de si mesma.

Começou a ter sonhos esquisitos e logo desconfiou: não eram sonhos seus. Será que de tanto querer ser outra pessoa estava roubando-lhe o subconsciente?

Voar


Dizem que o ser humano não precisa necessariamente ser forte, mas precisa se sentir forte de vez em quando.

Coisas simples como furar as ondas do mar, subir nos galhos de uma árvore ou tocar num animal selvagem… Esses pequenos enfrentamentos da natureza nos fazem ter a impressão de que não somos esses seres frágeis que parecemos. Não temos garras pra machucar, não temos pêlo pra nos aquecer e muito menos asas pra voar. Mas de vez em quando é bom pro ser humano se enganar e se sentir capaz de sobreviver à tudo que é mais forte.

No fim do ano fui voar de asa delta. Eu não fiz nada demais, apenas segurei no instrutor e corri ao lado dele pro céu. No ar, ele pilotava a asa e controlava o vento enquanto a boba aqui se imaginava voando como uma Supergirl. Mas sabe, de vez em quando a gente precisa disso.

Não existe inveja boa…

mas a inveja também não é a pior coisa do mundo.

A inveja é a vontade de ter o que o outro tem quando a gente está longe de conseguir. Se você conduzi-la pro bom caminho, ela pode te motivar a ir atrás dos seus desejos e um dia, realizá-los. Já que somos humanos e portanto, imperfeitos, nunca estaremos livres deste tipo de sentimento ruim. Acho que o segredo é encarar essa coisa feia e amarga e transformá-la numa força que impulsiona a ser exatamente o contrário. E aí, quando menos se espera, a inveja passa. Você até continua sentindo uma vergoinha por um dia tê-la sentido, mas já está tão distante daquela fase que merece um perdão interno. Pra falar a verdade, esse blog surgiu um pouco da minha inveja dos blogs bacanas de textos literários que vejo por aí. Tanta gente jovem produzindo coisa boa e eu parada, engolida pelo cotidiano, cheia de preguiça. Agora estou aqui, escrevendo todo dia e feliz com o resultado.

Já quando você se torna o objeto de inveja acho que é ainda mais fácil: é só não dar importância. Encare como um elogio, afinal, se a pessoa te inveja é porque no fundo, admira você. Só não vale ficar se desculpando, nem pela sua sorte e muito menos pelas suas conquistas, afinal, cada um sabe o que sofreu pra conseguir o que tem.  

Olhando para meus olhos puxados ninguém sabe o quanto ralei pra passar na USP. Ao saber que tenho um namorado médico as pessoas não entendem quanto tempo passo sozinha esperando o fim de plantões intermináveis. Quando se admiram da minha sanidade mental não imaginam o inferno pelo qual eu já passei na vida. E se eu virar uma roteirista foda com vários prêmios no currículo dando entrevista no Jô ninguém vai lembrar os programas de gosto duvidável nos quais eu já trabalhei. Ok, a vida é assim. Mas é assim pra todo mundo, então pra quê ficar reclamando?

Vá à luta!

(ou va fa napoli)