O amor é cega

Todo dia a moça aparecia no metrô às 8:13. Tinha vários óculos escuros diferentes mas neste dia estava com o preferido do atendente do metrô: o de aros vermelhos. Vinha batendo sua bengalinha no chão e parava na frente da catraca do canto esquerdo. O atendente já esperava por ela, pegava sua mão com delicadeza e posicionava em seu braço. Passava com ela pela catraca, descia as escadas, esperava pelo vagão. De vez em quando brincava: “Vai pra Barra Funda hoje?” Ela sempre ía pra Barra Funda. Depois de colocá-la pra dentro acionava o rádio, avisando na estação de destino que a mocinha cega estava chegando.

Este era o momento preferido do atendente. Até começara a passar perfume antes de sair de casa. Mal sabia que ela poderia, literalmente, descer até o vagão de olhos fechados. Ela sabe a distância da catraca só de ouví-la rodar. Sabe que precisa contar 43 degraus pra descer toda a escada. E o chão da plataforma muda de textura quando ela se aproxima do vão. 

Mas ela gosta de ser conduzida pela mão quente e perfumada do rapaz do metrô.

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