A Paciência e a Tempestade

Ano passado entrei numa oficina de criação literária pois queria aprender a escrever contos. Daí, no primeiro dia me avisaram que aquele semestre só estudaríamos poesia. Droga. Não sei escrever poesia boa, acho tão difícil. Me sinto impostora. Mas aprendi alguns truques nas 5 aulas em que apareci. Segue um dos textos que fiz lá. A ideia era usar palavras com a letra P e o tema era o TEMPO. Segundo a professora o P tem um som oclusivo, fecha o ar, causa impacto.

A Paciência apaga o pretérito imperfeito

a passos de pluma, esparsos e premeditados

A Tempestade persegue os porões dos pecados

com pesadas patas pisoteia, sem piedade

A Paciência pede tempo

e o Tempo, no seu pedestal

é implacável

A Tempestade provoca o tempo

e o Tempo, imparcial,

permanece impermeável

Predomina em mim a paciência

mas com lampejos de tempestade

parece que só o tempo dirá

quem eu sou de verdade

Outra vez


Outro horário pra sair de casa

Outro ônibus, metrô, jegue

Outro crachá com outra foto

Outros amigos

Outras tarefas

Dá trabalho mudar de trabalho

Não que eu já tenha achado outro

mas sei que logo ele aparece

E eu vou virar a página

e mudar tudo outra vez

O estraga prazer

Quando olhava para o céu via nuvens em forma de monstros, urubus e caveiras.

Quando fazia aniversário olhava feio pra quem comia brigadeiro antes da hora.

E nunca emprestava o pogobol.

Virou adulto e não melhorou.

Quando tinha feriado  não deixava nenhum funcionário emendar.

Quando via fotos de Suri Cruise pensava: vesga.

Sentiu que sua obra estava completa quando jogou na internet um boato que se espalhou rapidamente: suco de jiló previne o câncer.

Presente de 50 anos

Acordou com aquilo na cabeça, foi cozinhando durante o dia e na saída do trabalho estava decidida.  Não contou para ninguém.

Desceu do ônibus dois pontos antes do que costumava, bem pertinho da farmácia pela qual passava todo dia. Entrou e perguntou pro mocinho do balcão se tinha o que ela queria. Tinha. Lá no fundo, meio escondido agora, por causa das novas leis.    

Sentou num banco branco forrado de plástico transparente que fazia um barulho irritante quando ela se movia. Um rapaz cheio de piercings, franja alisada com chapinha e um pouco de lápis preto nos olhos chegou logo depois e sentou ao seu lado. Ela tinha visto na televisão, era um emo.

O farmacêutico apareceu com a pistola de ar e perguntou se ela estava pronta. Como não sabia, respondeu com um sorriso nervoso:  

-Nunca tive a orelha furada. Será que dói?

O emo logo foi se adiantando: Não dói nada, tia. O que dói é esse aqui. E mostrou a língua varada com um piercing enorme.

Ela pôs a mão na boca e sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Ele segurou a mão dela. Com prática, o farmacêutico posicionou a pistola na orelha e atirou.  Não doeu nada. 

No dia em que fez 50 anos, ela se deu de presente um pouco de coragem.

Esmalte Sereia

Acordou se sentindo leve. Enfim teve uma folga depois de três anos mergulhada no trabalho. Seu ofício era lavar toalhas gigantes num hotel. Hotel, não. Resort.

Suas mãos viviam afundadas na água, quente ou fria. E também no cloro, no alvejante e no sabão. Quase não tinha mais impressões digitais.

Lutava pra tirar as toalhas da máquina, torcer e colocar na secadora. Seus músculos foram desenhados levantando o mais puro algodão egípcio. Molhado.

Então, no seu primeiro dia de folga em muito tempo, acordou bem mais tarde do que costume. Resolveu que iria na manicure fazer as unhas.

O Sol estava forte mas a brisa refrescava bem. Era como tirar o sapato depois de um dia inteiro de aperto.

No caminho olhou o mar. Nunca parava pra admirá-lo. Os turistas gringos não estavam errados, era bonito mesmo.

Sentiu que tinha andado no caminho errado. Não queria ser lavadeira, queria ser sereia.

Foi na manicure, pintou as unhas de verde claro e foi curtir seu primeiro dia de desemprego.