Exceto Andrea e Ana

Elas corriam, atrasadas por motivos diferentes mas empurradas pela mesma pressa. Encontraram-se no meio do pátio vazio. Só faltava subir o escadão. Haveria tempo. Mas ao constatarem a existência desse tempo, resolveram não subir.

Suas amigas estavam todas lá na capela. A esta altura vestidas com batas impecáveis. Em formação de coral. Cantando algo bem bonito para seus pais orgulhosos.

Andrea e Ana não se inscreveram pro coral. Não queriam cantar, não queriam rezar, não queriam se vestir bem. Não poderiam forçar sorrisos. Aquele era o dia da missa de formatura. E lá estavam elas, sujas e suadas demais pra parecer que não.

Foi uma conversa triste onde cada uma chorava seus problemas. Durante três anos elas haviam ajudado uma a outra com conselhos, conversas, abraços. Mas naquele dia, não. Andrea não ofereceu consolos a Ana e Ana tampouco soube o que dizer pra Andrea. Confessaram-se vazias, confusas, abatidas. Viviam o ápice de algo que aos poucos, dava pra ver, não era mais a adolescência. Perceberam alí que crescer era tão difícil que talvez não coubesse comemorar.  Ao invés disso morreram um pouco naquele lugar entorpecidas pela felicidade alheia. Tudo fedia a felicidade, exceto Andrea e Ana.

A força pra mover as circunstâncias não estava ali  com elas, não naquele dia.
Foram caminhando pra casa, cada uma com sua nuvem preta.

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Anos depois nos encontramos num aniversário. As duas felizes. Não aquela felicidade de final de filme, mas uma felicidade normal, de quem vive bem, sorri pra foto, come bolo e até repete. E sei lá por quê, lembramos daquele dia, sorrindo. Quando tudo que meu olhar tocava era solidão, exceto ela. Um pedacinho do mundo com quem fechei um silencioso pacto de amizade. Que ninguém viu, exceto Andrea e Ana.

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O começo do amor

Quando a mãe enlouquecia, Fernanda corria pra casa do vizinho e lá ficava escondida. Tudo começou num dia em que ficou trancada pra fora de casa. Sentou na calçada por horas até que Paulinho vencesse a timidez e a desconfiança e a convidasse pra esperar em sua casa. O convite se tornou quase diário até enfim, não ser mais necessário.

Entre carrinhos de plástico e bolas de supermercado, Fernanda encontrava seu refúgio. No começo Paulinho não gostava de ter uma MENINA mexendo nas suas coisas mas com o tempo foi gostando de ensinar como virar figurinha no chão da sala e matar barata com uma chinelada só. Ela sujava sua roupinha de tanto brincar e no dia seguinte voltava impecável. Sempre com roupa de marca, sapato lustroso, fita no cabelo e até um relógio digital que engordava seu punho magro.

Paulinho não entendia: Por que você mora aqui se você é rica?

Ao que ela respondia: Já seeeei! Vamos jogar futebol, pular no gramado, fugir de casa, tomar yakult?

E ele sempre ía.

Só não ía na casa de Fernanda . Lá não dava pra brincar porque tudo era de cristal. Ai de quem quebrasse os elefantinhos de marfim, manchasse a parede recém-pintada ou derrubasse um quadro da parede. E sempre havia  o risco da mãe de Fernanda não estar num dia bom e envenenar com seus comentários austeros e baforadas de cigarro aquilo que poderia ser o começo do amor. Fora isso, o mundo era deles.