O começo do amor

Quando a mãe enlouquecia, Fernanda corria pra casa do vizinho e lá ficava escondida. Tudo começou num dia em que ficou trancada pra fora de casa. Sentou na calçada por horas até que Paulinho vencesse a timidez e a desconfiança e a convidasse pra esperar em sua casa. O convite se tornou quase diário até enfim, não ser mais necessário.

Entre carrinhos de plástico e bolas de supermercado, Fernanda encontrava seu refúgio. No começo Paulinho não gostava de ter uma MENINA mexendo nas suas coisas mas com o tempo foi gostando de ensinar como virar figurinha no chão da sala e matar barata com uma chinelada só. Ela sujava sua roupinha de tanto brincar e no dia seguinte voltava impecável. Sempre com roupa de marca, sapato lustroso, fita no cabelo e até um relógio digital que engordava seu punho magro.

Paulinho não entendia: Por que você mora aqui se você é rica?

Ao que ela respondia: Já seeeei! Vamos jogar futebol, pular no gramado, fugir de casa, tomar yakult?

E ele sempre ía.

Só não ía na casa de Fernanda . Lá não dava pra brincar porque tudo era de cristal. Ai de quem quebrasse os elefantinhos de marfim, manchasse a parede recém-pintada ou derrubasse um quadro da parede. E sempre havia  o risco da mãe de Fernanda não estar num dia bom e envenenar com seus comentários austeros e baforadas de cigarro aquilo que poderia ser o começo do amor. Fora isso, o mundo era deles.

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2 comentários sobre “O começo do amor

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