A máquina dos sonhos

Acordou no meio de uma inspiração. O ar ficou retido nos pulmões até ela finalmente perceber que estava em sua cama. Expirou. O sonho tinha terminado.

Ainda com suor no rosto Verônica se sentou. Pegou o bloco de papel e a caneta que havia deixado na cabeceira e apenas sob a luz do luar que se esgueirava pela janela, escreveu: MORTE. Mas a tinta da caneta não saiu, deixando apenas um relevo fundo marcado a força. A caneta não estava pegando. Abriu a gaveta com pressa, pegou outra caneta e nada, também sem tinta.

Levantou num pulo e correu pro quarto antigo da sua meia irmã, Valquíria.  Desviando de caixas fechadas e de uma cama sem colchão encontrou uma escrivaninha cheia de papeis e revistas amontoados. Pegou um lápis, mas estava sem ponta. Eis que avistou embaixo de toda aquela bagunça uma antiga máquina de escrever. Uma “Hermes Baby portátil” como costumava dizer sua irmã, cheia de pompa. Verônica destacou a folha do bloco e a colocou na máquina. Logo o ruído certeiro de suas teclas cortava o silêncio da madrugada. Escreveu:

MORTE.

Era tudo que lembrava depos da caça às canetas. Continuou dedilhando a MORTE a esmo até que de repente, como se tomados de uma força exterior, os dedos começaram a formar palavras diferentes.

AZULEJOS PRETOS E BRANCOS

PÁSSARO VOANDO

AONDE ESTÁ

VALQUÍRIA

Verônica tirou o papel da máquina e releu. Não se lembrava mais de ter sonhado aquilo.

Colar de Pílulas

Ela entra no banheiro furando a fila com a urgência de quem vai vomitar. Tudo sufoca. O calor suado da pista. Fios de cabelo caindo na testa.  O olho coçando. Tudo sufoca.

Vai até a pia, põe suas mãos embaixo da torneira aberta sem notar que outra pessoa está lavando as mãos alí mesmo. Joga uma água no rosto e encara o espelho. Ela tem olhos verdes amarelados, como os de gato arisco.

Daí é o colar que sufoca, com suas pérolas falsas coçando mais e mais a cada volta. Ela tenta tirar o colar por cima da cabeça mas está tudo embaraçado. Puxa de um lado, engancha no cabelo. Puxa de outro, voa um paetê da blusa. A bagunça aumenta e como tudo sufoca ela dá um puxão definitivo e arrebenta o colar. As pérolas se espalham todas pelo chão do banheiro.

Uma porta se abre e ela corre para o reservado. Ninguém na fila reclama dessa garota esquisita.

Entra Alaíde à sua procura. De repente todo mundo sumiu, a meia luz se fez inteira e a música ficou mais distante.

-Cássia?

Ninguém responde.

Como não é de perguntar duas vezes, Alaíde se abaixa, tentando ver pelo vão da porta de cada reservado. No chão antes coberto por pérolas, dezenas de pílulas coloridas se espalham. Finalmente se decide por uma das portas, levanta e abre a palma de dedos finos em frente ao trinco marcando ocupado. Com um gesto firme ela empurra a porta que se abre sem oferecer resistência.

Cássia está no chão, desmaiada ao lado do vaso, as pílulas bicolores aos seus pés. Alaíde senta na tampa do vaso e suspira.

-Antes vocês não tinham menos que 40 anos. Agora se estragam fácil, antes mesmo de aparentar o estrago. – olha para Cássia, encolhida como um bebê. Você, então…

Alaíde segura o rosto de Cássia como quem olha os dentes de um cavalo. Espreme seus lábios entre o polegar e os outros quatro dedos. Com a mão espalmada sobe em direção à testa, passando pelos olhos dela na direção contrária de quem quer cobrir as pálpebras de um morto.

Cássia acorda. Está sozinha num banheiro sujo, suado e barulhento. Alguém bate na porta com força, perguntando: Morreu aí dentro?!

O segredo para toda felicidade do mundo

Deborah acorda e vai pra sala. Encontra Cássia na janela escancarada. Ela não olha a paisagem, olha pra cima.

-Oi.

Cássia se vira, seus olhos borrados de lápis preto estão mais vivos do que nunca. Ela sorri.

-Eu acho que encontrei. Vem.

Deborah se aproxima. Cássia põe o pé descalço no sofá, toma impulso e sobe na janela. Está com os dois pés no parapeito, elegante como uma ginasta em cima da barra. Uma ginasta alta, de cabelos sujos e soltos, calça jeans e olhos borrados.

Ela vira o corpo para Deborah, inclina a cabeça pra trás e se esforça para ler algo escrito no alto, nas paredes de fora do prédio.

-O segredo… – ela se inclina mais, pois o sol ofusca sua visão. O segredo para toda…

Os pés se movem paralelos, em busca do resto do enigma. É Cássia quem corre o risco de cair, mas é Deborah quem está tensa. Não tira os olhos da irmã e levanta os braços sem perceber, como se precisasse se equilibrar mesmo estando com os pés plantados no assoalho de madeira.

-O segredo para toda felicidade… Estou quase conseguindo! – diz, pulando de euforia.

Deborah vai até a janela enfim e olha pra baixo. Vê  a quadra esportiva de linhas quase apagadas e um parquinho com brinquedos de cores pálidas. O corpo de Cássia não combinaria em nada com este cenário. Seus cabelos pretos quase azuis, olhos azuis quase brancos e sangue vermelho quase preto, em tudo destoariam da paleta de cores aguadas do chão. Ainda assim, a cada passo, Deborah teme que Cássia encontre o concreto morno e dele não se separe mais.

-O segredo para toda felicidade… do mundo… é…