Quem são as pessoas?

As pessoas mentem. As pessoas são preconceituosas. As pessoas têm inveja. A pessoas são egoístas.

Diante de qualquer caso duvidoso há sempre a menção das misteriosas “pessoas”.

“Pessoas” privadas de nomes próprios e culpadas de todos os erros que nós, pessoas presentes, visíveis e certificadas não queremos assumir.

Uma “terceira pessoa” entra em apartamentos desconhecidos pra jogar garotinhas indefesas de janelas.

Outras “pessoas” sequestram grávidas e crianças em ilhas perdidas.

Tem “gente” que é assim. Viu.

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Cicatriz

Eu tenho uma cicatriz no meio da testa me alertando a não pegar estrada de terra durante o temporal.

Outra no braço me diz pra não dançar perto de quem está segurando um cigarro aceso.

Tenho uma cicatriz no joelho que atesta : Nessa vida, mesmo seus irmãos vão querer te derrubar, nem que seja de brincadeira.

Meu avô costumava dizer que a parte do corpo que apanha muito fica mais forte. Uma vez fui fazer massagem no ombro dele e ele pediu pra eu forçar o cotovelo em suas saboneteiras. Massagem não é carinho. Lembro também que um dia ele tentou andar com meus rollerblades pois quando era jovem, patinava nos lagos congelados do Japão. Beirava os 90 anos e quase caiu, mas não caiu. Ele minimizava a dor física. Coisa de samurai.

Cicatrizes não são apenas lembranças do que nosso corpo sofreu, são também provas incontestáveis de que sobrevivemos.

Não diga isso

Algumas frases não devem ser ditas. “Ou eu ou ela” é uma delas. Não deixa de ser um questionamento válido mas colocá-lo pra fora demonstra uma insegurança tal que é melhor deixar quieto.  

Quando criança, numa dessas picuinhas de meninas, uma amiguinha me colocou em xeque. “Ou ela ou eu”. Não tinha ainda nenhum apego maior à outra, mas só por causa da pergunta impertinente, eu a preferi. E somos melhores amigas até hoje, veja só.

Porque quando você manda alguém escolher “ou ela ou eu”, tenta exercer uma forma de poder e censura que só uma barata tonta pode aceitar. Somos obrigados a bater o pé desde pequenos pra dizer: Você não manda em mim.

Então por favor, seja menos um chato nesta vida. Ao invés de “Ou eu ou ela” diga “sou mais eu”.

Voar


Dizem que o ser humano não precisa necessariamente ser forte, mas precisa se sentir forte de vez em quando.

Coisas simples como furar as ondas do mar, subir nos galhos de uma árvore ou tocar num animal selvagem… Esses pequenos enfrentamentos da natureza nos fazem ter a impressão de que não somos esses seres frágeis que parecemos. Não temos garras pra machucar, não temos pêlo pra nos aquecer e muito menos asas pra voar. Mas de vez em quando é bom pro ser humano se enganar e se sentir capaz de sobreviver à tudo que é mais forte.

No fim do ano fui voar de asa delta. Eu não fiz nada demais, apenas segurei no instrutor e corri ao lado dele pro céu. No ar, ele pilotava a asa e controlava o vento enquanto a boba aqui se imaginava voando como uma Supergirl. Mas sabe, de vez em quando a gente precisa disso.

Não existe inveja boa…

mas a inveja também não é a pior coisa do mundo.

A inveja é a vontade de ter o que o outro tem quando a gente está longe de conseguir. Se você conduzi-la pro bom caminho, ela pode te motivar a ir atrás dos seus desejos e um dia, realizá-los. Já que somos humanos e portanto, imperfeitos, nunca estaremos livres deste tipo de sentimento ruim. Acho que o segredo é encarar essa coisa feia e amarga e transformá-la numa força que impulsiona a ser exatamente o contrário. E aí, quando menos se espera, a inveja passa. Você até continua sentindo uma vergoinha por um dia tê-la sentido, mas já está tão distante daquela fase que merece um perdão interno. Pra falar a verdade, esse blog surgiu um pouco da minha inveja dos blogs bacanas de textos literários que vejo por aí. Tanta gente jovem produzindo coisa boa e eu parada, engolida pelo cotidiano, cheia de preguiça. Agora estou aqui, escrevendo todo dia e feliz com o resultado.

Já quando você se torna o objeto de inveja acho que é ainda mais fácil: é só não dar importância. Encare como um elogio, afinal, se a pessoa te inveja é porque no fundo, admira você. Só não vale ficar se desculpando, nem pela sua sorte e muito menos pelas suas conquistas, afinal, cada um sabe o que sofreu pra conseguir o que tem.  

Olhando para meus olhos puxados ninguém sabe o quanto ralei pra passar na USP. Ao saber que tenho um namorado médico as pessoas não entendem quanto tempo passo sozinha esperando o fim de plantões intermináveis. Quando se admiram da minha sanidade mental não imaginam o inferno pelo qual eu já passei na vida. E se eu virar uma roteirista foda com vários prêmios no currículo dando entrevista no Jô ninguém vai lembrar os programas de gosto duvidável nos quais eu já trabalhei. Ok, a vida é assim. Mas é assim pra todo mundo, então pra quê ficar reclamando?

Vá à luta!

(ou va fa napoli)

Feliz Natal

Nesta época do ano meus avós sempre repetiam seus mesmos rituais.

Minha avó comprava um monte de panetone e embrulhava com capricho, como se fossem os presentes mais caros do mundo. Depois saía distribuindo a cada visita, tanto para os parentes e amigos quanto para o porteiro, a enfermeira do hospital e por aí vai.

Já meu avô nesta época estava ocupadíssimo com a tarefa, a cada ano mais árdua, de mandar cartões de Natal. Ele comprava um monte de cartões e papel de seda. Cortava o papel, colava dentro do cartão e escrevia mensagens em japonês, usando o alfabeto de kanjis. No ocidente esta bela caligrafia se tornou uma ótima desculpa pra fazer tatuagem mas no Japão é considerada uma verdadeira arte milenar. Meu avô gostava de acordar bem cedo pra fazer isso e tinha que fazer antes de fumar, assim as mãos tremiam menos.

Meus avós todo ano se entregavam aos seus rituais, espalhando carinho e dedicação por aí, com os gestos  mais simples que eles bem sabiam, eram os mais preciosos que poderiam existir.

Feliz  Natal!!!

Dublador

O pai do Antunes era o dublador oficial do Sylvester Stallone. Quando faleceu até saiu uma notinha no jornal. Ele dera voz brasileira à maioria dos machões do cinema americano como Burt Reynolds, Steven Seagal, Christopher Reeves… mas era lembrado mesmo pela voz do Stallone.

Seu cotidiano nada tinha a ver com os soldados revoltados, lutadores em busca de glória ou caçadores de kickboxers das telonas. Cuidava da voz como um bem precioso, evitava bebedeiras, não gostava da madrugada e nunca tomava chuva. Em casa estocava potes de mel e não admitia que falassem alto demais perto dele. Poderia danificar os tímpanos. 

Era muito culto, lia James Joyce, encomendava DVD´s raros do cineasta Alain Resnais e exigia dos filhos as maiores notas na escola. Quando se deparava com uma nota baixa no boletim, não dava bronca, e sim, debochava da falta de perspicácia da criança. Pode-se dizer que foi com essa técnica que ele fez Antunes se tornar um intelectual-acadêmico-mestre-doutor-pesquisador.  

Seu pai morreu há mais de 15 anos, mas ainda hoje, Antunes se pega olhando pra tv com lágrimas nos olhos quando por acaso se depara com uma reprise de algum filme do Sylvester Stallone. “A memória auditiva é uma coisa poderosa”, pensa. Mas no fundo, ele só queria que o pai tivesse sido mais parecido com o Rocky Balboa.

Mesmo assim

Ele tem o hábito repugnante de fumar no banheiro. Tira um cigarro, fuma, molha a ponta na água da torneira e deixa a bituca num cinzeiro que não sai de cima da pia. São várias bitucas nojentas acumuladas até finalmente a faxineira limpar o cinzeiro. Quando lavo meu rosto com a minha espuma importada comprada no freeshop sinto aquele aroma de tabaco úmido subir pela minha garganta e impregnar meus poros.

Mas eu o amo mesmo assim.

Companheira de Cela

Fabiana era uma ótima companheira de cela. Éramos só nós duas naquele pequeno espaço frio. Ela foi transferida antes de mim e pelo que me contava, tivera problemas com uma colega paranóica. Às vezes as pessoas não entendem que estão confinadas, principalmente as mulheres. A tal colega vivia querendo saber o que o ex-marido andava fazendo lá fora. Chegou ao cúmulo até de pedir que alguém lhe trouxesse um fio de cabelo do amado para despachar uma macumba. Estressada com os arroubos histéricos constantes em que se via envolvida Fabiana rezava por uma transferência e quando ela veio, foi um alívio só. Afinal, até na prisão é preciso ter alguma sanidade.

Fabiana era uma ótima companheira de cela. Sempre cheia de “bom dia” e “como vai”. Do tipo que te chama de “querida” sem soar falso. Que liga pra mãe todos os dias e a trata como se fosse sua própria  filha. Dividia  qualquer lanche especial que descolava. E por pior que as coisas estivessem, ela sempre me chamava de flor. Outra qualidade difícil de encontrar é que tinha timing para as conversas. Sabia quando ficar quieta mas também sabia quando o papo podia se prolongar. Falávamos sobre namorados, gatos, irmãos, comidas preferidas…

Há uns 6 meses não a vejo, desde que precisei sair do emprego. Deixei meu lugar na pequena sala que dividia com Fabiana numa das muitas produtoras de vídeo de São Paulo.  A monotonia sempre dá as caras, até nos empregos mais legais do mundo, seja por algumas horas ou por todas elas. Por isso é tão importante ter companheiras de cela como a Fabiana.

Puxa, que saudade.

A gata que chamava gata

 

Gata, a gata

Minha gata não tem nome. Tem vários apelidos, mas nome mesmo, nunca teve.

Ela é a sexta gata que eu tenho, mas a primeira sem nome. Na  época em que seria sensato batizá-la a experiência dos felinos anteriores me fez perceber que nenhum deles, nunca, atendeu pelo nome próprio. Coisa de gato.  Pensei então que o nome dos gatos serve somente para nosso próprio benefício. Os gatos mesmo, que deveriam ser os maiores interessados, tão nem aí. Daí não sugeri nenhum nome e ninguém de casa sugeriu também.

A gata sem nome é branca e marrom e tem olhos azuis. Não gosta de colo e mia bastante, olhando nos olhos, como se conversasse. Ela também não gosta de dormir perto do rosto da gente, prefere se aconchegar nos nossos pés. Ela sabe dar a pata, mas só a direita. E adora ser penteada. A-do-ra. Mas não a provoque, quando fica irritada, ela morde.

Assim é a gatinha sem nome  que dele nunca sentiu falta. Outro dia me ocorreu um nome perfeito: Madame. Mas creio que agora já é tarde demais.