Meu olfato

Gosto do cheiro de cloro que sinto ao passar perto de uma faxineira lavando o chão. Me lembra aula de natação.
Gosto do cheiro de citronela, geralmente quando se acende uma vela pro pernilongo não vir.
Também adoro inclinar a cabeça em cima da frigideira pra sentir o cheiro de alho e cebola dourando no óleo.

Manda engarrafar e põe no meu carrinho?

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Eu sou o piloto

Há muito tempo fiz um desses testes que circulam pela internet. A pergunta era: Qual personagem de O Pequeno Príncipe você seria? Como eu não sou candidata a miss me sinto na liberdade de gostar deste livro de verdade. Curti muito o resultado, olha só:

"Você é o piloto e a voz da história. Você é aquele que cria e conta as histórias para aqueles que não puderam estar presentes. Você é incapaz de ser confortado mas deseja confortar os outros. Há algo faltando em sua vida. Não esqueça que você é muito amado. Deixe seu sofrimento ser confortado."

Eu me identifiquei com a função do personagem e também com seus sentimentos de inadequação. Provavelmente não é uma coincidência apenas comigo, talvez todo escritor tenha algo dentro de si que é mal resolvido e que precisa sair pela ponta do lápis. A cada final feliz que colocamos no papel um pouco dessa melancolia finge se esvair. E quando vamos por caminhos mais obscuros, de personagens malvados e soluções desesperançosas, queremos expor um pouco nossas feridas em busca de alguém que no fundo, sinta o mesmo e nos diga: isso é normal.

Pra quem quiser, o teste está aqui http://quizilla.teennick.com/quizzes/101624/saint-exuperys-the-little-prince-quiz

Clarice e sua Olympia

Clarice Lispetor e sua Olympia portátil

Em 2007 visitei o Museu da Língua Portuguesa cujo tema da temporada era a Clarice Lispector. Lá comprei um manual fantástico da exposição, com fotos e textos que fizeram parte dela. Me identifiquei muito com um trecho onde Clarice descreve claramente sua relação com a máquina de escrever. Obviamente que eu não uso a máquina toda hora, eu sou do tempo do computador, mas entendo por que ela prefere uma máquina ao lápis. Segue:

“Uso uma máquina de escrever portátil Olympia que é leve bastante para o meu estranho hábito: o de escrever com a máquina no colo. Corre bem, corre suave. Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra. Por assim dizer provoca meus sentimentos e pensamentos. E ajuda-me como uma pessoa. E não me sinto mecanizada por usar máquina. Inclusive parece (?) captar sutilezas. Além de que, através dela, sai logo impresso o que escrevo, o que me torna mais objetiva. O ruído baixo de seu teclado acompanha discretamente a solidão de quem escreve. Eu gostaria de dar um presente à minha máquina. Mas o que se pode dar a uma coisa que modestamente se mantém como coisa, sem a pretensão de se tornar humana? Essa tendência atual de elogiar as pessoas dizendo que são muito humanas está-me cansando. Em geral esse humano está querendo dizer bonzinho, afável, senão meloso. E é isso tudo o que a máquina não tem. Sequer a vontade de se tornar um robô sinto nela. Mantém-se na sua função, e satisfeita. O que me dá também satisfação.”

Que lucidez pra descrever algo tão ininteligível! “Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra” é genial.

Xadrez na Santa Cecília

No Largo da Santa Cecília há uma praça feia, bem na boca do metrô. Por lá circula de tudo: camelô, carrinho de hot dog,  estudante do mackenzie, médico da santa casa.

O que sempre me chama a atenção, destoantes, são os tabuleiros de damas. São duas mesas grudadas no chão, acompanhadas de banquinhos de concreto. As pedras não são pedras, são tampinhas de garrafa.

Os idosos que se reunem alí passam horas exercitando suas estratégias, munidos apenas de suas boinas e bengalas.

Em meio a travestis, alcóolatras e cachorrros abandonados eles inventam duelos, rezam pela sorte e vencem batalhas.

Bem alí, onde os mendigos já perderam a lucidez, a inteligência destes nobres senhores resiste.

Blogueiras

Os blogs andam com nomes cada vez mais criativos, só ficam atrás dos nomes de esmalte. Pensando nisso bolei uma brincadeirinha boba com todos os nomes de blogs (ou quase todos porque leio blogs compulsivamente) que acompanhei bastante este ano.

Querido Leitor,

Hoje vou assim usando um vestido carmim

conferir se Vende na farmácia

coisas que muito eu desejo:

blush, rímel e pão de queijo.

Fecho o superziper da calça e saio decidida,

mas perdi o fio da meada antes da saída

Não sei o que aconteceu,

nem que bicho me mordeu

mas esqueci os planos do dia de beauté

pois de repente pude perceber:

 Tô com Fome!

Fiz um sanduíche de ricota mas esquece,

essa Ricota não derrete

será que sobrou algum Petisco favorito

pra domar meus estômago arisco?

Se não sobrou, por favor, anote: o email do The Cookie Shop.

Divas – Inezita Barroso

Inezita Barroso, a diva

Inezita Barroso, a diva

Vocês vão achar que é brincadeira, mas eu realmente acho que a Inezita Barroso é uma diva!

Até 2004 passei minha vida ignorando sua existência mas tudo mudou quando fiz meu primeiro estágio na TV Cultura. Confesso que fiquei decepcionada ao saber que eu havia sido designada pra trabalhar no Viola, Minha Viola, programa de música caipira que tem um ano a mais de existência que eu! Este ano completou 29 anos no ar.

Nada daquilo tinha a ver comigo: não sabia qual era a diferença entre música raiz e sertaneja, não podia conter a risada com cada nome esdrúxulo de duplas que eu ouvia e meu diretor então, com seu fétido fumo de corda, era um caso a parte.

Mas eis que eu conheci a diva e aos poucos meus preconceitos foram por água abaixo. Lembro dela cantando no palco, com seus cílios postiços enormes e batom vermelho, soltando aquela voz retumbante que num instante, sabia se recolher e emocionar. As mãos octagenárias surpreendiam pela força que imprimiam em cada gesto. E os velhinhos humildes que sozinhos atravessavam a cidade inteira para vê-la choravam de verdade, lembrando de algum tempo antigo em que foram felizes. Você já viu 100 velhinhos juntos chorando ao mesmo tempo? Não é um feito para se respeitar?

Inezita gata na juventude

Inezita não nasceu no campo, ao contrário, foi criada numa família aristocrática da Barra Funda, dona de muitas fazendas de café. Desde criança estudou violão, viola e piano. Além de ser cantora, atriz e apresentadora, ela também se formou em Biblioteconomia na USP e em meio aos livros sobre folclore, se apaixonou ainda mais pela cultura popular do Brasil. Inezita em si é uma biblioteca, conhece todas as músicas de raiz e sabe quem são seus autores de cor.

Eu sempre recebia cartinhas na produção com perguntas sobre músicas antigas, ou melhor, fragmentos de canções escritas em linhas bem tortas. Inezita sempre matava a charada na hora, cantava a música toda e contava a história de sua composição. E lá ia eu toda feliz, responder a cartinha com informações que nem o Google seria capaz de encontrar.

Não é a toa que com sua memória de elefante, Inezita até hoje dá aulas de folclore em duas faculdade de turismo. Além disso ela grava toda semana um programa de rádio e o programa de tv. No ano em que eu estava lá ela desfilou por duas escolas de samba, uma delas, a Gaviões da Fiel (Inezita é corintiana convicta). Que energia!
Como toda diva deve ser, na minha opinião, Inezita também tinha um apetite voraz, adorava pizza de queijo e não dispensava a marvada pinga. Em tudo eu admiro Inezita, tanto a figura pública quanto a privada que tive o privilégio de conhecer e conviver, pelo menos por 6 meses. Os meses em que aprendi o que era televisão.

Quando comecei a gostar de bailarinas?

Na minha infância eu odiava bailarinas. Aliás, odiava ser criança e queria crescer logo pra ser dona do meu nariz. Achava falsa aquela delicadeza toda e a rigidez dos gestos parecia fruto de uma disciplina chata e sem fim. Eu que nem roupa branca podia usar pois sujava tudo num segundo nunca tive aquele sonho de vestir o tutu e a sapatilha de cetim. Achava tudo rosa demais. Eu não penteava o cabelo, não usava saia nem vestido e odiava comprar roupas. Basicamente eu tomava banho e escovava os dentes.

Do alto dos meus quase 30 anos, tudo mudou. Outro dia entrei num Mc Donalds e vi duas garotinhas na fila com roupinhas de princesa e sapatilhas nos pés. Tinham os cabelos bem presos e cheios de gel com glitter. Cada uma usava um vestidinho diferente mas os dois com saias bem rodadas, armadas pelo tule. De mãos dadas, elas relembravam saltitantes cada passo da coreografia que pelo jeito havia sido um sucesso. Achei uma graça. Porque afinal bailarinas são graciosas, ainda mais assim, tão felizes de seus feitos. Da perna que esticou até aonde precisava ir. Do ombro que se manteve na postura certa. Dos pulinhos certos na hora exata e sei lá mais o quê. Imagino que sendo tão pequenas as garotas devem ter feito tudo meio errado, sem equilíbrio, olhando de canto pra professora. E mesmo assim (talvez até por isso mesmo) deve ter sido uma graça.

Quando comecei a gostar de bailarinas?
Acho que foi quando percebi que tinha virado adulta. Quando comecei a gastar mais de 20 minutos pra escolher minha roupa de manhã. Quando comecei a usar maquiagem pra não ficar com cara de doente. E claro, ao perceber que a rotina do adulto é a coisa mais chata do mundo. Minha saudade de ser menina é que me faz sorrir ao ver essas garotinhas. Fantasiadas de princesas, imaginando um mundo cor de rosa onde sempre haverá um palco pra elas subirem e serem aplaudidas.

Ver filme no cinema

Eu gosto de ver filme no cinema, na sala escura cheia de gente.

Principalmente esses filmes que sabem mexer com a emoção das pessoas.

Lá pelo meio da história, quando todos já se afeiçoaram ao mocinho mas ainda não sabem como ele vai chegar ao final feliz, gosto de olhar para a cara das pessoas ao meu lado. Essa gente desconhecida, por algum momento esboça a mesma expressão, ao mesmo tempo.

Quando Jennifer Aniston perdeu o bebê em Marley e Eu o cinema todo soluçava. As mulheres assoavam o nariz e os homens baixavam os olhos como se estivessem com dor de cabeça.

Persepolis

Na sala lotada de Persépolis, em plena Mostra Internacional de Cinema, a tensão pairava no ar, como se estivéssemos vivendo no Irã, aprisionados numa burca que se abria de vez em quando, nos inteligentes alívios cômicos do filme.

Posso jurar que em O Curioso Caso de Benjamin Button o encantamento nos olhos da plateia fazia parecer que todos estavam regredindo pra infância.

E naquela primeira cena de Bastardos Inglórios, estamos todos embaixo das tábuas frouxas daquela casinha francesa, escondidos juntos com os judeus, tentando não fazer barulho enquanto o nazista faz sua inspeção.

Bastardos Inglórios

Uma vez assistindo a um filme de terror dei um grito bem alto que todo mundo ouviu. O filme nem era bom, apenas explorava a maneira mais fácil de assustar, com um monstro aparecendo de repente na tela no exato segundo em que a música se torna capaz de estourar tímpanos. Nunca mais vi filme de terror em tela grande.

No sofá de casa a gente não sente essas coisas.

Os gatos

Não consigo ignorar nenhum gato.

Seja na rua, na praia, na fazenda, no parque. Seja de dono amigo ou desconhecido. Converso, faço carinho. Tiro do meio da rua e coloco na calçada. Abrigo os órfãos por uma noite ou duas. 

Quando um deles cruza meu caminho, digo ao menos um “psh psh psh” só pra chamar sua atenção. Infalível. Gatos adoram o som rasteiro que escapa entre os dentes semi-cerrados. “Psh psh psh” significa “olhe pra mim, vamos ser melhores amigos”. Os gatos sempre acreditam e depois de ouvirem este som, abanam o rabo e se aproximam, curiosos.

Será que existe um equivalente na linguagem humana?