O começo do amor

Quando a mãe enlouquecia, Fernanda corria pra casa do vizinho e lá ficava escondida. Tudo começou num dia em que ficou trancada pra fora de casa. Sentou na calçada por horas até que Paulinho vencesse a timidez e a desconfiança e a convidasse pra esperar em sua casa. O convite se tornou quase diário até enfim, não ser mais necessário.

Entre carrinhos de plástico e bolas de supermercado, Fernanda encontrava seu refúgio. No começo Paulinho não gostava de ter uma MENINA mexendo nas suas coisas mas com o tempo foi gostando de ensinar como virar figurinha no chão da sala e matar barata com uma chinelada só. Ela sujava sua roupinha de tanto brincar e no dia seguinte voltava impecável. Sempre com roupa de marca, sapato lustroso, fita no cabelo e até um relógio digital que engordava seu punho magro.

Paulinho não entendia: Por que você mora aqui se você é rica?

Ao que ela respondia: Já seeeei! Vamos jogar futebol, pular no gramado, fugir de casa, tomar yakult?

E ele sempre ía.

Só não ía na casa de Fernanda . Lá não dava pra brincar porque tudo era de cristal. Ai de quem quebrasse os elefantinhos de marfim, manchasse a parede recém-pintada ou derrubasse um quadro da parede. E sempre havia  o risco da mãe de Fernanda não estar num dia bom e envenenar com seus comentários austeros e baforadas de cigarro aquilo que poderia ser o começo do amor. Fora isso, o mundo era deles.

O estraga prazer

Quando olhava para o céu via nuvens em forma de monstros, urubus e caveiras.

Quando fazia aniversário olhava feio pra quem comia brigadeiro antes da hora.

E nunca emprestava o pogobol.

Virou adulto e não melhorou.

Quando tinha feriado  não deixava nenhum funcionário emendar.

Quando via fotos de Suri Cruise pensava: vesga.

Sentiu que sua obra estava completa quando jogou na internet um boato que se espalhou rapidamente: suco de jiló previne o câncer.

Presente de 50 anos

Acordou com aquilo na cabeça, foi cozinhando durante o dia e na saída do trabalho estava decidida.  Não contou para ninguém.

Desceu do ônibus dois pontos antes do que costumava, bem pertinho da farmácia pela qual passava todo dia. Entrou e perguntou pro mocinho do balcão se tinha o que ela queria. Tinha. Lá no fundo, meio escondido agora, por causa das novas leis.    

Sentou num banco branco forrado de plástico transparente que fazia um barulho irritante quando ela se movia. Um rapaz cheio de piercings, franja alisada com chapinha e um pouco de lápis preto nos olhos chegou logo depois e sentou ao seu lado. Ela tinha visto na televisão, era um emo.

O farmacêutico apareceu com a pistola de ar e perguntou se ela estava pronta. Como não sabia, respondeu com um sorriso nervoso:  

-Nunca tive a orelha furada. Será que dói?

O emo logo foi se adiantando: Não dói nada, tia. O que dói é esse aqui. E mostrou a língua varada com um piercing enorme.

Ela pôs a mão na boca e sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Ele segurou a mão dela. Com prática, o farmacêutico posicionou a pistola na orelha e atirou.  Não doeu nada. 

No dia em que fez 50 anos, ela se deu de presente um pouco de coragem.

Esmalte Sereia

Acordou se sentindo leve. Enfim teve uma folga depois de três anos mergulhada no trabalho. Seu ofício era lavar toalhas gigantes num hotel. Hotel, não. Resort.

Suas mãos viviam afundadas na água, quente ou fria. E também no cloro, no alvejante e no sabão. Quase não tinha mais impressões digitais.

Lutava pra tirar as toalhas da máquina, torcer e colocar na secadora. Seus músculos foram desenhados levantando o mais puro algodão egípcio. Molhado.

Então, no seu primeiro dia de folga em muito tempo, acordou bem mais tarde do que costume. Resolveu que iria na manicure fazer as unhas.

O Sol estava forte mas a brisa refrescava bem. Era como tirar o sapato depois de um dia inteiro de aperto.

No caminho olhou o mar. Nunca parava pra admirá-lo. Os turistas gringos não estavam errados, era bonito mesmo.

Sentiu que tinha andado no caminho errado. Não queria ser lavadeira, queria ser sereia.

Foi na manicure, pintou as unhas de verde claro e foi curtir seu primeiro dia de desemprego.

O amor é cega

Todo dia a moça aparecia no metrô às 8:13. Tinha vários óculos escuros diferentes mas neste dia estava com o preferido do atendente do metrô: o de aros vermelhos. Vinha batendo sua bengalinha no chão e parava na frente da catraca do canto esquerdo. O atendente já esperava por ela, pegava sua mão com delicadeza e posicionava em seu braço. Passava com ela pela catraca, descia as escadas, esperava pelo vagão. De vez em quando brincava: “Vai pra Barra Funda hoje?” Ela sempre ía pra Barra Funda. Depois de colocá-la pra dentro acionava o rádio, avisando na estação de destino que a mocinha cega estava chegando.

Este era o momento preferido do atendente. Até começara a passar perfume antes de sair de casa. Mal sabia que ela poderia, literalmente, descer até o vagão de olhos fechados. Ela sabe a distância da catraca só de ouví-la rodar. Sabe que precisa contar 43 degraus pra descer toda a escada. E o chão da plataforma muda de textura quando ela se aproxima do vão. 

Mas ela gosta de ser conduzida pela mão quente e perfumada do rapaz do metrô.

A espera de Kenson

Kenson cansou de esperar em vão. Enfim, se conformou: o amor não vai acontecer desta vez.

Seu rosto não se iluminará nem seu peito se encherá de alegria ao olhar pra Teca num dia qualquer. Os beijos dela não ficarão melhores de um segundo pro outro porque o desejo não se faz como a chama de um isqueiro. Não neste caso.

Sua companhia não se tornará enfim irresistível. Teca pode se ausentar de repente, dar a volta ao mundo três vezes, entrar em coma e despertar miraculosamente. Nem assim Kenson sentirá saudades.

Ele cansou de esperar o dia em que finalmente olhará para Teca depois de inúmeros encontros fulgazes e resolverá transformá-la em sua escolhida. Apresentá-la aos amigos. Pensar no futuro. Este dia nunca chegará.

Aplicado em sua estatística sentimental, Kenson dá ao papo de Teca sua maior nota. Mas a matemática nada tem a ver com essa busca desenfreada por um je ne sais quoi que não se revela.

“Quer um papo bom? Namore um pelicano.” A frase absurda pipocou em sua cabeça. Apagou o telefone de Teca e seguiu a vida sem olhar pra trás.

Kenson cansou de esperar em vão pelo amor que nunca chega.

Mas um dia ele vai chegar.

A máquina dos sonhos

Acordou no meio de uma inspiração. O ar ficou retido nos pulmões até ela finalmente perceber que estava em sua cama. Expirou. O sonho tinha terminado.

Ainda com suor no rosto Verônica se sentou. Pegou o bloco de papel e a caneta que havia deixado na cabeceira e apenas sob a luz do luar que se esgueirava pela janela, escreveu: MORTE. Mas a tinta da caneta não saiu, deixando apenas um relevo fundo marcado a força. A caneta não estava pegando. Abriu a gaveta com pressa, pegou outra caneta e nada, também sem tinta.

Levantou num pulo e correu pro quarto antigo da sua meia irmã, Valquíria.  Desviando de caixas fechadas e de uma cama sem colchão encontrou uma escrivaninha cheia de papeis e revistas amontoados. Pegou um lápis, mas estava sem ponta. Eis que avistou embaixo de toda aquela bagunça uma antiga máquina de escrever. Uma “Hermes Baby portátil” como costumava dizer sua irmã, cheia de pompa. Verônica destacou a folha do bloco e a colocou na máquina. Logo o ruído certeiro de suas teclas cortava o silêncio da madrugada. Escreveu:

MORTE.

Era tudo que lembrava depos da caça às canetas. Continuou dedilhando a MORTE a esmo até que de repente, como se tomados de uma força exterior, os dedos começaram a formar palavras diferentes.

AZULEJOS PRETOS E BRANCOS

PÁSSARO VOANDO

AONDE ESTÁ

VALQUÍRIA

Verônica tirou o papel da máquina e releu. Não se lembrava mais de ter sonhado aquilo.

É grave, doutor?

Eram 3 metros quadrados que ficavam ainda menores com os inúmeros objetos espalhados aleatoriamente pela sala. A doutora Cândida mantinha sua postura fleumática e voz suave, sem notar o caos em que vivia instalada, entre cadernos e canetas, anjos de vidro e elefantes de resina, pegadores de sonho e mandalas. Verônica observava uma fila de matrioshkas que  diminuia progressivamente ao longo de uma prateleira. O fato de uma se encaixar perfeitamente dentro da outra era uma ideia hiptonizante para ela.

-Verônica? Então, me diga… Que sonhos são esses que vêm te perturbando?

-O problema é esse… eu não consigo lembrar! Eu acordo angustiada, às vezes até gritando… demoro a dormir pensando no sonho… mas no dia seguinte, já esqueci tudo.

-Você não se lembra de nada, nenhuma imagem, nenhum som? Qualquer coisa pode ajudar. 

-Nada mesmo. Só tenho essa sensação de que eu vi algo muito horrível, mas não sei o que é. 

-Por que você não faz o seguinte: antes de dormir deixe ao lado da cama um bloco de papel e uma caneta. Assim que você acordar de mais um sonho, anote tudo que você se lembra, sem pestanejar. Escreva mesmo se à princípio parecer sem sentido. Com certeza isso vai te ajudar.

-Na verdade, eu queria que você me ajudasse a parar de ter esses sonhos.

-Por quê? Os sonhos trazem mensagens importantes, não se deve ignorá-los.

-Eu tenho medo do que posso descobrir. Às vezes eu acho que existe outra dentro de mim.

A grande viagem – Parte 2

Parte 1

Carlinhos achou engraçado ver o pai dormindo numa cama de solteiro, afinal, cama de adulto é cama de casal. Quando ele acordou, Carlinhos fingiu que ainda dormia mas logo ouviu uma voz carinhosa a sussurrar.

“Carlinhos, acorda… nós temos muita coisa pra fazer hoje”.

O menino abriu os olhos devagarinho e improvisou um bocejo bem falso.

Meio atrapalhado, o pai se viu pela primeira vez sem a assistência da esposa nestes assuntos matinais e  não sabia o que fazer primeiro.

“Tá com fome meu filho? Vamos descer pro restaurante e tomar aquele café da manhã! Põe o tênis. Não, primeiro vamos colocar uma roupa. Que camiseta você quer usar? Ah, mas você ainda não escovou o dente, vamos escovar os dentes.”

Por fim, checou o filho dos pés a cabeça: cabelo penteado, roupa limpa, cadarços amarrados.

“Vamos, Carlinhos?”

“Mas pai, você vai de cueca?”

Ele deu uma risada profunda, daquelas que só dava quando o filho mais velho, Juca, aprontava uma das suas. Na ansiedade de deixar Carlinhos pronto, esquecera de se arrumar. O rosto do menino se iluminou. Não era todo dia que se provocava o riso de um grande comediante.

Sem a concorrência bárbara existente numa casa com cinco irmãos, Carlinhos pode pela primeira vez, experimentar vários privilégios. Apertou sozinho o botão no elevador. Comeu apenas o que tinha vontade de comer. A pedido do pai escolheu qual carro alugariam naquele dia. Carlinhos escolheu um amarelo.

Eram enfim, dois solteiros prontos pra curtir a Disney. Foram 15 dias descobrindo os mais fantásticos brinquedos, nadando no parque aquático, admirando os pulos dos golfinhos, abraçando o Mickey e sua turma… Mas principalmente, 15 dias inteiros em que Carlinhos passou de mãos dadas com seu pai.

E que mudança esses dias provocaram! Depois de tanto gritar de emoção no barco viking, Carlinhos passou a falar alto, impostar a voz, cada palavra sua fluindo claramente. Depois de admirar a queima de fogos no castelo da Cinderella, Carlinhos se sentiu leve: não existia problema no mundo que um show tão bonito não pudesse levar embora. Finalmente na maior  montanha russa da Disney, ao lado de seu pai, Carlinhos não teve dúvidas e levantou os braços sem medo na hora que o trem passou pelo looping.  Admirado, o pai percebeu que o menino estava pronto pra encarar a vida de frente. A partir dessa viagem, Carlinhos mudou completamente: passou a se sentir importante.

A grande viagem


O pai de Carlinhos era um grande comediante, mas Carlinhos, era uma criança triste.

A mãe, era uma modelo famosa, mas Carlinhos não era bonito.

Tinha quatro irmãos, dois mais velhos e dois mais novos. Juca era o engraçado, Marcelo era o peralta, Júlio era o bonito e Marcos era o inteligente. Carlinhos não era nada.

O pai fazia piadas, palhaçadas e de tudo brincava. Deu a ele um carrinho, um pônei, um walkman da sony. Pôs na aula de teatro, desenho, caratê… pra quê? Nada de Carlinhos se animar.

Até que um dia o pai veio com um papo diferente.

“Carlinhos, nós vamos fazer uma grande viagem. Só você e eu.”

“Carlinhos, falta uma semana pra nossa viagem. Nós vamos ficar 15 dias na Disneylândia.”

“E a sua mala, Carlinhos? Faz calor na Flórida, onde estão suas bermudas?”

Finalmente o grande dia chegou. Eles acordaram bem cedo, mais cedo do que a hora de ir pra escola. Enquanto os irmãos vestiam seus uniformes resmungando, a mãe de Carlinhos escolheu pra ele uma roupa bem colorida.

No saguão do aeroporto, Carlinhos só conseguia ver pernas de adultos bem compridas, passando pra lá e pra cá. Segurava a mão do pai com força, temendo se perder naquele mar de pernas sem rosto.

Aconteceu ainda na fila do check in. Depois de rodeá-lo como quem não quer nada, uma senhora de idade se aproximou com a filha que trazia a câmera fotográfica já em punho. Tinha os olhos arregalados e um sorriso bobo no rosto. Assim que o cumprimentou pelo nome já se colocou ao seu lado, pedindo pra bater a foto. O flash chamou a atenção dos presentes e de repente todos sabiam que o grande comediante estava lá. Vieram então umas moças mais novas, um grupinho de crianças e até os funcionários da companhia aérea que mesmo acostumados com a presença de artistas no aeroporto,  quiseram autógrafos. Todos chamavam a atenção do pai de Carlinhos e o garoto sumia, encolhido ao lado da bagagem.

continua…

Office Fúria – Parte 3

Parte 1

Parte 2

Raquel se sentia culpada como nunca. Pobre Gordinho! Sua pressão baixou com o calor e ele desmaiou! O martelo da vergonha parecia estar ainda mais pesado em sua bolsa. Relembrava cada martelada no ar condicionado e cada uma delas parecia doer em sua própria cabeça.  Além da culpa ela se sentia agora, impotente. Usou toda sua força e astúcia pra resolver o embate, mas fora vencida pela fragilidade do colega. Ele precisava mesmo viver no frio congelante, afinal. Não era birra nem frescura.

No pronto-socorro ela esperou todos irem embora para chegar do seu lado e dizer, seco e curto.

-Fui eu. Quebrei o ar condicionado de propósito.

Seus olhinhos pequenos como duas azeitonas solitárias numa pizza família piscaram várias vezes.

-Tudo bem, eu guardo segredo. Eu também já pensei em quebrar o ar, mas pra ficar frio e não quente.

Ela nunca tinha reparado, mas olhando bem dentro dos olhos do Gordinho havia uma criança. Aquela que passa o recreio sozinha e nunca é escolhido pro time de futebol. Resolveu então que agora passaria a chamá-lo de Geraldinho. Passaram a tarde toda conversando, tentando encontrar uma solução pra diferença corpórea de cada um.

Agora a situação está melhor no escritório. O ar condicionado fica numa temperatura média e Geraldinho ganhou o seu próprio ventilador. Vez ou outra Raquel e Geraldinho até saem juntos pra almoçar e um dos assuntos preferidos é difamar a intragável da Helena. Um dia ainda vão descobrir como se livrar dela, mas não será com um martelo.

Office Fúria – Parte 2

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Raquel acordou às 5 da manhã e seguiu para o escritório ainda no escuro, levando na Louis Vitton falsificada uma arma. A Vila Olímpia estava irreconhecível, sem carros, sem pessoas apressadas, sem camelôs. Um ou outro bêbado cambaleava por aí tentando voltar pra casa depois de um happy hour bem prolongad0. Raquel sentiu uma estranha paz no coração mas sabia que não havia muito tempo antes daquele paraíso se transformar num verdadeiro inferno.

Foi a primeira a acender a luz do escritório. Colocou uma cadeira embaixo da parede do velho ar condicionado. Tirou os sapatos dos pés e da bolsa surgiu o perigoso objeto que faria seu plano se realizar: um martelo. Subiu, girou o controle até uma temperatura mais agradável e depois,  pôs se a martelar o botão, até finalmente arrancá-lo. Agora ninguém mais poderia mudar a temperatura.

Foi só voltando do almoço que Raquel pode realmente saborear sua vitória. Sentou em seu lugar, com um sorvete de limão, e de lá ficou a observar o Gordo das Finanças. Ele suava, bufava, derretia. Tinha passado boa parte da manhã tentando descobrir o que estava errado com o ar. Quando percebeu que o botão tinha sumido passou a procurá-lo embaixo das mesas, dentro do lixo, sob o tapete. Perguntou 5 vezes pra mesma faxineira se ela havia visto o botão e claro, nada.

De repente o Gordo das Finanças levantou repentinamente mas imediatamente se jogou na cadeira novamente. Estava passando mal, muito mal. De sua boca caía um líquido viscoso, branco. Seus olhos se voltaram pra cima e ele perdeu a consciência.

Matei o Banha! – pensou Raquel – enquanto ligava pro médico.

Parte 3

Office Fúria

Raquel enfrentava um dia de trânsito na Vila Olímpia, o bairro comercial mais populoso de São Paulo. Pensava ela: “Benditos aqueles que nunca, sob quatro rodas, tentaram percorrer as vias da Vila Olímpia”. Raquel cordenava os avanços lentos de seu carro com os gritos do senhor Amarindo ao telefone enquanto tentava abrir uma pasta de documentos no banco traseiro. Claro que o marronzinho viu e passou a caneta. Mas nem concentração pra se lamentar ela tinha pois no seu ouvido bradava o senhor Amarindo, ocupando todo o espaço de seu cérebro com reclamações quanto ao seu atraso pra importante reunião. Faltava uma mosca pousar em sua testa suada pra ela sair do carro quebrando tudo com um taco de beisebol.

Enfim chegou, estacionou, subiu.

Assim que pisou na sala um frio cortante gelou sua espinha. Tudo culpa do Gordo das Finanças que todo dia colocava o ar condicionado no nível mais frio. Há algumas semanas Raquel havia tentado negociar uma temperatura mais amena mas o Gordo foi irredutível. A cada embate, ela lhe arranjava um novo nome, com o qual se deliciava cruelmente nos seus pensamentos mais íntimos. De Geraldo foi pra Gordinho das Finanças e de Gordinho das Finanças (o que ainda conferia certo carinho) passou a ser o Gordo, sem inho algum. Se tivesse tempo teria mudado o nome de seu inimigo novamente, talvez pra Escroto do Ar Condicionado ou apenas Banha.

Correu até sua mesa, a estagiária atrás com um copo de café, avisando que a reunião já havia começado.  Tentou encontrar seu caderno de anotações e o relatório que tinha guardado na sua gaveta mas eles haviam sumido. Temendo sua reação, a estagiária avisou timidamente: Helena pegou tudo e já levou pra reunião.  Raquel se indignou de tamanha maneira com o atrevimento da colega que derrubou litros de café em seu casaco branco. Agora teria que passar frio o dia inteiro. Helena também estava precisando de um novo apelido.

Então, a reunião foi péssima. Helena ficou lá dando show, repetindo cada insight inteligente que Raquel anotara em seu caderno. Explicando o óbvio já descrito em cada slide que ela havia preparado. E Raquel entrou atrasada na reunião e ficou num canto sentindo frio e sendo julgada por todos como “a atrasada”.

Ao sair, ficou 40 minutos presa numa ruazinha que dava acesso à Avenida Juscelino Kubistchek. Observando um muro do outro lado da calçada, avistou uma frase pixada: Você é escravo do trânsito.

Raquel pensou: amanhã tudo vai mudar.

Parte 2

Meu colega, o Hermes

O Hermes saiu da aposentadoria há alguns anos. Foi chamado pra trabalhar como escritor aqui em São Paulo. Vestiu o conjunto verde que sempre lhe caiu tão bem e se mandou do Rio Grande do Sul.

Chegou na velocidade dos correios.

Apareceu meio sem jeito e encontrou seu canto entre outros colegas mais jovens e descolados. Rapidamente Hermes mostrou que os anos de aposentadoria em nada afetaram seus anos de experiência. Os textos levavam mais tempo pra ficarem prontos, afinal, eram feitos à maneira antiga. Hermes não usava nada que se ligasse na tomada. Mas a literatura que fluía de suas mãos era inigualável.

A gramática era perfeita, revisada exaustivamente. Resultado de uma certa insegurança de Hermes, na verdade. Seus dedos tremiam um pouco e às vezes teclavam nas letras erradas. Sua clareza de ideias, nesses tempos de esquizofrenia desvairada da literatura de blog, descia bem pela garganta. Hermes tinha ainda outros segredos, era poeta! Mas não desses exibidos. Sua poesia fluía no texto, quase imperceptível, mas ainda assim, bastante agradável.

Hermes era calado, mas quantas histórias tinha pra contar.

Este é o Hermes B.

Paciente

Ela era muito paciente.

Aguentava a vontade de fazer xixi enquanto estava presa na fila do banco.

Ouvia papo de bêbado.

Usava internet discada.

Dava risadinhas educadas quando ouvia a velha piada do “é pra comê não é pavê”.

Não tinha TPM.

Um dia, implodiu.

Fim.

Sapatinhos de Rubi

 

Ruby shoes by nike

Vou com meus tênis de rubi

pela trilha de tijolos amarelados

Vejo homens sem coragem e sem coração

sem cérebro e sem noção

Quero conhecer o Mágico de Oz

mas acabo em Ozasco :(

Frases soltas

Ela se comunicava por frases soltas.

Pegava quem passava sempre desprevenido.

O marido indo na geladeira pegar uma cerveja. “Eles são vampiros que se alimentam de sangue de animais, não de humanos”.

A empregada passando aspirador no tapete felpudo. “A filha da tia dela é que foi morar nos Estados Unidos. Tinha 10 gatos na casa”.

A filha fumando escondido dentro do banheiro. “Não esquece que é amanhã, que precisa… coisar aquele negócio.. ou era terça?”

Não tinha o costume de olhar nos olhos quando falava. Só soltava frases soltas, sempre vidrada na tv.

Ninguém descobriu que vampiros eram estes que só sugavam sangue de animais. Nem quem tinha uma tia que tinha uma filha que foi morar numa casa cheia de gatos. Tampouco se lembram o que não poderiam esquecer, talvez na terça, talvez em qualquer outro dia.

Talvez ela estivesse mesmo falando com a tv.