Office Fúria – Parte 3

Parte 1

Parte 2

Raquel se sentia culpada como nunca. Pobre Gordinho! Sua pressão baixou com o calor e ele desmaiou! O martelo da vergonha parecia estar ainda mais pesado em sua bolsa. Relembrava cada martelada no ar condicionado e cada uma delas parecia doer em sua própria cabeça.  Além da culpa ela se sentia agora, impotente. Usou toda sua força e astúcia pra resolver o embate, mas fora vencida pela fragilidade do colega. Ele precisava mesmo viver no frio congelante, afinal. Não era birra nem frescura.

No pronto-socorro ela esperou todos irem embora para chegar do seu lado e dizer, seco e curto.

-Fui eu. Quebrei o ar condicionado de propósito.

Seus olhinhos pequenos como duas azeitonas solitárias numa pizza família piscaram várias vezes.

-Tudo bem, eu guardo segredo. Eu também já pensei em quebrar o ar, mas pra ficar frio e não quente.

Ela nunca tinha reparado, mas olhando bem dentro dos olhos do Gordinho havia uma criança. Aquela que passa o recreio sozinha e nunca é escolhido pro time de futebol. Resolveu então que agora passaria a chamá-lo de Geraldinho. Passaram a tarde toda conversando, tentando encontrar uma solução pra diferença corpórea de cada um.

Agora a situação está melhor no escritório. O ar condicionado fica numa temperatura média e Geraldinho ganhou o seu próprio ventilador. Vez ou outra Raquel e Geraldinho até saem juntos pra almoçar e um dos assuntos preferidos é difamar a intragável da Helena. Um dia ainda vão descobrir como se livrar dela, mas não será com um martelo.

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Office Fúria – Parte 2

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Raquel acordou às 5 da manhã e seguiu para o escritório ainda no escuro, levando na Louis Vitton falsificada uma arma. A Vila Olímpia estava irreconhecível, sem carros, sem pessoas apressadas, sem camelôs. Um ou outro bêbado cambaleava por aí tentando voltar pra casa depois de um happy hour bem prolongad0. Raquel sentiu uma estranha paz no coração mas sabia que não havia muito tempo antes daquele paraíso se transformar num verdadeiro inferno.

Foi a primeira a acender a luz do escritório. Colocou uma cadeira embaixo da parede do velho ar condicionado. Tirou os sapatos dos pés e da bolsa surgiu o perigoso objeto que faria seu plano se realizar: um martelo. Subiu, girou o controle até uma temperatura mais agradável e depois,  pôs se a martelar o botão, até finalmente arrancá-lo. Agora ninguém mais poderia mudar a temperatura.

Foi só voltando do almoço que Raquel pode realmente saborear sua vitória. Sentou em seu lugar, com um sorvete de limão, e de lá ficou a observar o Gordo das Finanças. Ele suava, bufava, derretia. Tinha passado boa parte da manhã tentando descobrir o que estava errado com o ar. Quando percebeu que o botão tinha sumido passou a procurá-lo embaixo das mesas, dentro do lixo, sob o tapete. Perguntou 5 vezes pra mesma faxineira se ela havia visto o botão e claro, nada.

De repente o Gordo das Finanças levantou repentinamente mas imediatamente se jogou na cadeira novamente. Estava passando mal, muito mal. De sua boca caía um líquido viscoso, branco. Seus olhos se voltaram pra cima e ele perdeu a consciência.

Matei o Banha! – pensou Raquel – enquanto ligava pro médico.

Parte 3

Office Fúria

Raquel enfrentava um dia de trânsito na Vila Olímpia, o bairro comercial mais populoso de São Paulo. Pensava ela: “Benditos aqueles que nunca, sob quatro rodas, tentaram percorrer as vias da Vila Olímpia”. Raquel cordenava os avanços lentos de seu carro com os gritos do senhor Amarindo ao telefone enquanto tentava abrir uma pasta de documentos no banco traseiro. Claro que o marronzinho viu e passou a caneta. Mas nem concentração pra se lamentar ela tinha pois no seu ouvido bradava o senhor Amarindo, ocupando todo o espaço de seu cérebro com reclamações quanto ao seu atraso pra importante reunião. Faltava uma mosca pousar em sua testa suada pra ela sair do carro quebrando tudo com um taco de beisebol.

Enfim chegou, estacionou, subiu.

Assim que pisou na sala um frio cortante gelou sua espinha. Tudo culpa do Gordo das Finanças que todo dia colocava o ar condicionado no nível mais frio. Há algumas semanas Raquel havia tentado negociar uma temperatura mais amena mas o Gordo foi irredutível. A cada embate, ela lhe arranjava um novo nome, com o qual se deliciava cruelmente nos seus pensamentos mais íntimos. De Geraldo foi pra Gordinho das Finanças e de Gordinho das Finanças (o que ainda conferia certo carinho) passou a ser o Gordo, sem inho algum. Se tivesse tempo teria mudado o nome de seu inimigo novamente, talvez pra Escroto do Ar Condicionado ou apenas Banha.

Correu até sua mesa, a estagiária atrás com um copo de café, avisando que a reunião já havia começado.  Tentou encontrar seu caderno de anotações e o relatório que tinha guardado na sua gaveta mas eles haviam sumido. Temendo sua reação, a estagiária avisou timidamente: Helena pegou tudo e já levou pra reunião.  Raquel se indignou de tamanha maneira com o atrevimento da colega que derrubou litros de café em seu casaco branco. Agora teria que passar frio o dia inteiro. Helena também estava precisando de um novo apelido.

Então, a reunião foi péssima. Helena ficou lá dando show, repetindo cada insight inteligente que Raquel anotara em seu caderno. Explicando o óbvio já descrito em cada slide que ela havia preparado. E Raquel entrou atrasada na reunião e ficou num canto sentindo frio e sendo julgada por todos como “a atrasada”.

Ao sair, ficou 40 minutos presa numa ruazinha que dava acesso à Avenida Juscelino Kubistchek. Observando um muro do outro lado da calçada, avistou uma frase pixada: Você é escravo do trânsito.

Raquel pensou: amanhã tudo vai mudar.

Parte 2