Mudamos

Pra quem ainda acompanha aqui, agora estou lá: http://historiasnabagagem.wordpress.com

Anúncios

As avós nunca vão embora

as avos nunca vão embora

Elas ficam nos conselhos sábios que brotam em nossa mente

quando mais precisamos.

Nas fábulas que um dia nos contaram e que no fundo,

a gente  nunca deixa de acreditar.

Elas ficam nos brincos de pérola que dão de presente

como herança disfarçada de lembrancinha.

No suspiro silencioso que segue a mordida

num bolinho de chuva.

E mesmo se não houver nada disso

As avós ficam nos olhos da sua mãe

Nos gestos da sua tia

Na cor do seu cabelo.

As avós nunca vão embora,

moram dentro da gente,

pra sempre.

Auto Exorcismo

Aquieta, coração.

Os invejosos vão sempre invejar

cada alegria, cada conquista e até mesmo a brisa

que bate no rosto de qualquer um.

Até mesmo as tristezas que te provam humano,

eles cobiçarão.

 

Aquieta, coração.

Os covardes sempre vão se acovardar.

Diante das verdades e vagos de razão,

eles se enfurecem.

Mas no fundo sabem:

não possuem em si a coragem

de admitir que perderam.

 

Aquieta, então.

Larga os orgulhos.

Apaga os planos de vingança.

Você sabe que esse ressentimento não te pertence.

Tal como na última cena de um filme do Fellini, sorri.

Sorri pra esse bando de filho da puta que não sabe ser feliz.

Exceto Andrea e Ana

Elas corriam, atrasadas por motivos diferentes mas empurradas pela mesma pressa. Encontraram-se no meio do pátio vazio. Só faltava subir o escadão. Haveria tempo. Mas ao constatarem a existência desse tempo, resolveram não subir.

Suas amigas estavam todas lá na capela. A esta altura vestidas com batas impecáveis. Em formação de coral. Cantando algo bem bonito para seus pais orgulhosos.

Andrea e Ana não se inscreveram pro coral. Não queriam cantar, não queriam rezar, não queriam se vestir bem. Não poderiam forçar sorrisos. Aquele era o dia da missa de formatura. E lá estavam elas, sujas e suadas demais pra parecer que não.

Foi uma conversa triste onde cada uma chorava seus problemas. Durante três anos elas haviam ajudado uma a outra com conselhos, conversas, abraços. Mas naquele dia, não. Andrea não ofereceu consolos a Ana e Ana tampouco soube o que dizer pra Andrea. Confessaram-se vazias, confusas, abatidas. Viviam o ápice de algo que aos poucos, dava pra ver, não era mais a adolescência. Perceberam alí que crescer era tão difícil que talvez não coubesse comemorar.  Ao invés disso morreram um pouco naquele lugar entorpecidas pela felicidade alheia. Tudo fedia a felicidade, exceto Andrea e Ana.

A força pra mover as circunstâncias não estava ali  com elas, não naquele dia.
Foram caminhando pra casa, cada uma com sua nuvem preta.

_______________

Anos depois nos encontramos num aniversário. As duas felizes. Não aquela felicidade de final de filme, mas uma felicidade normal, de quem vive bem, sorri pra foto, come bolo e até repete. E sei lá por quê, lembramos daquele dia, sorrindo. Quando tudo que meu olhar tocava era solidão, exceto ela. Um pedacinho do mundo com quem fechei um silencioso pacto de amizade. Que ninguém viu, exceto Andrea e Ana.

Cicatriz

Eu tenho uma cicatriz no meio da testa me alertando a não pegar estrada de terra durante o temporal.

Outra no braço me diz pra não dançar perto de quem está segurando um cigarro aceso.

Tenho uma cicatriz no joelho que atesta : Nessa vida, mesmo seus irmãos vão querer te derrubar, nem que seja de brincadeira.

Meu avô costumava dizer que a parte do corpo que apanha muito fica mais forte. Uma vez fui fazer massagem no ombro dele e ele pediu pra eu forçar o cotovelo em suas saboneteiras. Massagem não é carinho. Lembro também que um dia ele tentou andar com meus rollerblades pois quando era jovem, patinava nos lagos congelados do Japão. Beirava os 90 anos e quase caiu, mas não caiu. Ele minimizava a dor física. Coisa de samurai.

Cicatrizes não são apenas lembranças do que nosso corpo sofreu, são também provas incontestáveis de que sobrevivemos.

Irrita

Ter sono e não poder dormir irrita.

Mas dormir demais e perder a hora irrita ainda mais.

Ter fome e não conseguir comer irrita.

Mas comer demais e sentir que um alien habita seu estômago irrita ainda mais.

Bater a canela no pé da cama irrita.

Bater de novo irrita ainda mais.

Passar creme na celulite, na barriga, na olheira irrita.

Mas se olhar no espelho e ver a beleza fenecer irrita ainda mais.

A irritação é um bicho selvagem que mora dentro da gente

e morde depois de receber um afago.

Outra vez


Outro horário pra sair de casa

Outro ônibus, metrô, jegue

Outro crachá com outra foto

Outros amigos

Outras tarefas

Dá trabalho mudar de trabalho

Não que eu já tenha achado outro

mas sei que logo ele aparece

E eu vou virar a página

e mudar tudo outra vez

Estagiários profissionais

Carregando a TV since Chacrinha

Os anúncios de oportunidade de estágio pra área de TV/Cinema são tragicômicos. O menino/menina precisa ter conhecimento de vários softwares, disponibilidade pra trabalhar em horários malucos, falar inglês ou francês e muitas vezes, principalmente quando a vaga é na área de produção, exige-se que tenha carro. Essa aliás, é a pista de que o trabalho vai ser sacal pois com o seu carrinho você vai buscar lata de filme na PQP, deixar figurino na casa da atriz, buscar o almoço da equipe inteira etc. Claro que o salário/bolsa é muito menor do que o de um estagiário de administração por exemplo, que trabalha 6 horas por dia no ar condicionado. Já vi até gente que desistiu da profissão depois de muito penar em produtoras mambembes.

Realtivamente, eu tive sorte, fiz estágio em duas emissoras grandes. Numa delas até rolou uma exploraçãozinha mas na outra foi bem tranquilo, tinha horário certinho e vários benefícios, como todo estágio normal das outras áreas.

Apesar dos pesares, sei que as coisas são assim e no mundo real não dá pra ter uma boa formação sem passar por isso. Aprende-se, pega-se ritmo de trabalho e faz-se muitos contatos importantes. A maioria dos meus empregos consegui através de contatos que fiz durante o estágio. Mas no fim, a conclusão é:

Estágio: ainda bem que um dia acaba.

Nem sempre o amor é cega

Hoje no metrô me deparei com a cena do post passado. O atendente do metrô estava guiando uma mocinha cega bem na minha frente. Eles desceram as escadas e na plataforma ele passou o braço dela pra um outro atendente que a levou até o vagão.

O primeiro atendente não conversava com ela. Não avisou nenhuma vez que o degrau ía acabar e pra falar a verdade, estava com uma cara de tédio. E o pior, quando foi passá-la pro outro ficou gesticulando e sussurrando, como se a cega não escutasse.  

Custa as pessoas serem mais gentis e fofas como nos posts de ficção?

Uma relação estranha

Verônica amava sua irmã mais nova mas também a odiava. 

Às vezes desejava sua morte. Fantasiava um acontecimento abrupto, um acidente de carro, uma pausa respiratória na calada da noite, um vírus misterioso que ninguém conhecia. Mas bastava a irmã machucar o joelho que lá ía Verônica chorar também.

Ensinou quais eram os autores bons de ler e a irmã acreditava cegamente no gosto da mais velha, devorando livros. Mas quando a pequena recebia nota 10 em redação, Verônica se remoía de inveja.

Não aceitava o fato de que a irmã crescera com um pai, uma mãe, uma irmã mais velha e um cachorro, pois Verônica não teve nada disso. Não gostava quando diziam que eram parecidas mas via nela uma versão mais nova e alegre de si mesma.

Começou a ter sonhos esquisitos e logo desconfiou: não eram sonhos seus. Será que de tanto querer ser outra pessoa estava roubando-lhe o subconsciente?

Agradecimento

Mariana Blues de Márcio Yonamine

Eu abri este blog só pra colocar meus textos, nada de contar como foi meu dia ou reclamar da vida mas pelo menos este agradecimento preciso fazer.

Ontem chegou um presente super especial pelo correio, este livro aí de cima, Mariana Blues, do Márcio Yonamine.

Nos conhecemos na ECA quando eu estudava Audiovisual. Ele é o mentor do zine Amorosa Cia Pneumática (pra quem não viu, clique aqui), aliás, ele é mentor de muitas coisas, está sempre inventando novos projetos divertidos.

Adorei, é pra ler sorrindo!

Segue o blog dele, A Casa Invisível.

Encontrão

Estava entrando no metrô lotado quando uma garota esbarrou em mim com tudo. Apesar do encontrão certeiro, em nada me machucou. Não pisou no meu pé, não socou meu estômago.

Ao invés de fazer cara feia e sair bufando ela pôs as mãos na testa, cobrindo uma expressão de atriz de comédia romântica desastrada e disse: Aiiiinn… desculpa!

Antes de processar sua reação, já preparada para os esbarrões grosseiros do transporte público, respondi toscamente: Presta atenção! E fui embora.

Moça simpática da blusa roxa, me perdoa. É a aspereza do dia a dia que contamina a gente.

Obsessão de 5 segundos

Num dia de calor sufocante caiu uma chuva de 5 segundos. Molhou o asfalto quente e transformou o bafo em ar respirável. Logo depois, olhei pela janela e o Sol já tinha secado qualquer rastro de água.

Naquele instante, eu vivia mais um momento de obsessão mental. Meus pensamentos se alternavam aleatoriamente entre palavras assim: Quando, Como, Por quê. Sempre acompanhadas de verbos conjugados  no futuro. Porque vez ou outra, assim como hoje, sou surpreendida por meus 5 segundos de obsessão com o futuro. Nestes momentos me interrogo, me cobro e me julgo. (E sabe) nunca ganho a causa.  Condenada a nunca saber como me resolver.

Mas aí os 5 segundos passam. Volto pra minha vida de horário pra pegar o ônibus, de salário pra guardar no fim do mês, da tarefa urgente de arrumar as gavetas e de happy hour no bar. Me recolho pro vazio do cotidiano e nele me aconchego como numa tarde preguiçosa de Sol.

Só pra tempos depois voltar a me questionar: Quando vou  me mexer? Quando vou mudar? Quando vou aprender? Quando essa obrigatoriedade de ser feliz vai deixar de ser um fardo?

Há alguns anos um amigo me disse que Deus sempre espera você estar pronto. Se é assim, só posso concluir, que há tempo pra tudo. Tempo pra lutar com todas as forças e tempo pra se esconder lambendo as feridas. Tempo de não entender nada e tempo de finalmente dar certeza. Tempo até pra descobrir como se vive essa loucura que a gente chama de vida.

Hoje quero me dar um conselho:

-Andrea, há tempo pra tudo.