A espera de Kenson

Kenson cansou de esperar em vão. Enfim, se conformou: o amor não vai acontecer desta vez.

Seu rosto não se iluminará nem seu peito se encherá de alegria ao olhar pra Teca num dia qualquer. Os beijos dela não ficarão melhores de um segundo pro outro porque o desejo não se faz como a chama de um isqueiro. Não neste caso.

Sua companhia não se tornará enfim irresistível. Teca pode se ausentar de repente, dar a volta ao mundo três vezes, entrar em coma e despertar miraculosamente. Nem assim Kenson sentirá saudades.

Ele cansou de esperar o dia em que finalmente olhará para Teca depois de inúmeros encontros fulgazes e resolverá transformá-la em sua escolhida. Apresentá-la aos amigos. Pensar no futuro. Este dia nunca chegará.

Aplicado em sua estatística sentimental, Kenson dá ao papo de Teca sua maior nota. Mas a matemática nada tem a ver com essa busca desenfreada por um je ne sais quoi que não se revela.

“Quer um papo bom? Namore um pelicano.” A frase absurda pipocou em sua cabeça. Apagou o telefone de Teca e seguiu a vida sem olhar pra trás.

Kenson cansou de esperar em vão pelo amor que nunca chega.

Mas um dia ele vai chegar.

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Não diga isso

Algumas frases não devem ser ditas. “Ou eu ou ela” é uma delas. Não deixa de ser um questionamento válido mas colocá-lo pra fora demonstra uma insegurança tal que é melhor deixar quieto.  

Quando criança, numa dessas picuinhas de meninas, uma amiguinha me colocou em xeque. “Ou ela ou eu”. Não tinha ainda nenhum apego maior à outra, mas só por causa da pergunta impertinente, eu a preferi. E somos melhores amigas até hoje, veja só.

Porque quando você manda alguém escolher “ou ela ou eu”, tenta exercer uma forma de poder e censura que só uma barata tonta pode aceitar. Somos obrigados a bater o pé desde pequenos pra dizer: Você não manda em mim.

Então por favor, seja menos um chato nesta vida. Ao invés de “Ou eu ou ela” diga “sou mais eu”.

A máquina dos sonhos

Acordou no meio de uma inspiração. O ar ficou retido nos pulmões até ela finalmente perceber que estava em sua cama. Expirou. O sonho tinha terminado.

Ainda com suor no rosto Verônica se sentou. Pegou o bloco de papel e a caneta que havia deixado na cabeceira e apenas sob a luz do luar que se esgueirava pela janela, escreveu: MORTE. Mas a tinta da caneta não saiu, deixando apenas um relevo fundo marcado a força. A caneta não estava pegando. Abriu a gaveta com pressa, pegou outra caneta e nada, também sem tinta.

Levantou num pulo e correu pro quarto antigo da sua meia irmã, Valquíria.  Desviando de caixas fechadas e de uma cama sem colchão encontrou uma escrivaninha cheia de papeis e revistas amontoados. Pegou um lápis, mas estava sem ponta. Eis que avistou embaixo de toda aquela bagunça uma antiga máquina de escrever. Uma “Hermes Baby portátil” como costumava dizer sua irmã, cheia de pompa. Verônica destacou a folha do bloco e a colocou na máquina. Logo o ruído certeiro de suas teclas cortava o silêncio da madrugada. Escreveu:

MORTE.

Era tudo que lembrava depos da caça às canetas. Continuou dedilhando a MORTE a esmo até que de repente, como se tomados de uma força exterior, os dedos começaram a formar palavras diferentes.

AZULEJOS PRETOS E BRANCOS

PÁSSARO VOANDO

AONDE ESTÁ

VALQUÍRIA

Verônica tirou o papel da máquina e releu. Não se lembrava mais de ter sonhado aquilo.

É grave, doutor?

Eram 3 metros quadrados que ficavam ainda menores com os inúmeros objetos espalhados aleatoriamente pela sala. A doutora Cândida mantinha sua postura fleumática e voz suave, sem notar o caos em que vivia instalada, entre cadernos e canetas, anjos de vidro e elefantes de resina, pegadores de sonho e mandalas. Verônica observava uma fila de matrioshkas que  diminuia progressivamente ao longo de uma prateleira. O fato de uma se encaixar perfeitamente dentro da outra era uma ideia hiptonizante para ela.

-Verônica? Então, me diga… Que sonhos são esses que vêm te perturbando?

-O problema é esse… eu não consigo lembrar! Eu acordo angustiada, às vezes até gritando… demoro a dormir pensando no sonho… mas no dia seguinte, já esqueci tudo.

-Você não se lembra de nada, nenhuma imagem, nenhum som? Qualquer coisa pode ajudar. 

-Nada mesmo. Só tenho essa sensação de que eu vi algo muito horrível, mas não sei o que é. 

-Por que você não faz o seguinte: antes de dormir deixe ao lado da cama um bloco de papel e uma caneta. Assim que você acordar de mais um sonho, anote tudo que você se lembra, sem pestanejar. Escreva mesmo se à princípio parecer sem sentido. Com certeza isso vai te ajudar.

-Na verdade, eu queria que você me ajudasse a parar de ter esses sonhos.

-Por quê? Os sonhos trazem mensagens importantes, não se deve ignorá-los.

-Eu tenho medo do que posso descobrir. Às vezes eu acho que existe outra dentro de mim.

Clarice e sua Olympia

Clarice Lispetor e sua Olympia portátil

Em 2007 visitei o Museu da Língua Portuguesa cujo tema da temporada era a Clarice Lispector. Lá comprei um manual fantástico da exposição, com fotos e textos que fizeram parte dela. Me identifiquei muito com um trecho onde Clarice descreve claramente sua relação com a máquina de escrever. Obviamente que eu não uso a máquina toda hora, eu sou do tempo do computador, mas entendo por que ela prefere uma máquina ao lápis. Segue:

“Uso uma máquina de escrever portátil Olympia que é leve bastante para o meu estranho hábito: o de escrever com a máquina no colo. Corre bem, corre suave. Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra. Por assim dizer provoca meus sentimentos e pensamentos. E ajuda-me como uma pessoa. E não me sinto mecanizada por usar máquina. Inclusive parece (?) captar sutilezas. Além de que, através dela, sai logo impresso o que escrevo, o que me torna mais objetiva. O ruído baixo de seu teclado acompanha discretamente a solidão de quem escreve. Eu gostaria de dar um presente à minha máquina. Mas o que se pode dar a uma coisa que modestamente se mantém como coisa, sem a pretensão de se tornar humana? Essa tendência atual de elogiar as pessoas dizendo que são muito humanas está-me cansando. Em geral esse humano está querendo dizer bonzinho, afável, senão meloso. E é isso tudo o que a máquina não tem. Sequer a vontade de se tornar um robô sinto nela. Mantém-se na sua função, e satisfeita. O que me dá também satisfação.”

Que lucidez pra descrever algo tão ininteligível! “Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra” é genial.

Uma relação estranha

Verônica amava sua irmã mais nova mas também a odiava. 

Às vezes desejava sua morte. Fantasiava um acontecimento abrupto, um acidente de carro, uma pausa respiratória na calada da noite, um vírus misterioso que ninguém conhecia. Mas bastava a irmã machucar o joelho que lá ía Verônica chorar também.

Ensinou quais eram os autores bons de ler e a irmã acreditava cegamente no gosto da mais velha, devorando livros. Mas quando a pequena recebia nota 10 em redação, Verônica se remoía de inveja.

Não aceitava o fato de que a irmã crescera com um pai, uma mãe, uma irmã mais velha e um cachorro, pois Verônica não teve nada disso. Não gostava quando diziam que eram parecidas mas via nela uma versão mais nova e alegre de si mesma.

Começou a ter sonhos esquisitos e logo desconfiou: não eram sonhos seus. Será que de tanto querer ser outra pessoa estava roubando-lhe o subconsciente?

Voar


Dizem que o ser humano não precisa necessariamente ser forte, mas precisa se sentir forte de vez em quando.

Coisas simples como furar as ondas do mar, subir nos galhos de uma árvore ou tocar num animal selvagem… Esses pequenos enfrentamentos da natureza nos fazem ter a impressão de que não somos esses seres frágeis que parecemos. Não temos garras pra machucar, não temos pêlo pra nos aquecer e muito menos asas pra voar. Mas de vez em quando é bom pro ser humano se enganar e se sentir capaz de sobreviver à tudo que é mais forte.

No fim do ano fui voar de asa delta. Eu não fiz nada demais, apenas segurei no instrutor e corri ao lado dele pro céu. No ar, ele pilotava a asa e controlava o vento enquanto a boba aqui se imaginava voando como uma Supergirl. Mas sabe, de vez em quando a gente precisa disso.

Não existe inveja boa…

mas a inveja também não é a pior coisa do mundo.

A inveja é a vontade de ter o que o outro tem quando a gente está longe de conseguir. Se você conduzi-la pro bom caminho, ela pode te motivar a ir atrás dos seus desejos e um dia, realizá-los. Já que somos humanos e portanto, imperfeitos, nunca estaremos livres deste tipo de sentimento ruim. Acho que o segredo é encarar essa coisa feia e amarga e transformá-la numa força que impulsiona a ser exatamente o contrário. E aí, quando menos se espera, a inveja passa. Você até continua sentindo uma vergoinha por um dia tê-la sentido, mas já está tão distante daquela fase que merece um perdão interno. Pra falar a verdade, esse blog surgiu um pouco da minha inveja dos blogs bacanas de textos literários que vejo por aí. Tanta gente jovem produzindo coisa boa e eu parada, engolida pelo cotidiano, cheia de preguiça. Agora estou aqui, escrevendo todo dia e feliz com o resultado.

Já quando você se torna o objeto de inveja acho que é ainda mais fácil: é só não dar importância. Encare como um elogio, afinal, se a pessoa te inveja é porque no fundo, admira você. Só não vale ficar se desculpando, nem pela sua sorte e muito menos pelas suas conquistas, afinal, cada um sabe o que sofreu pra conseguir o que tem.  

Olhando para meus olhos puxados ninguém sabe o quanto ralei pra passar na USP. Ao saber que tenho um namorado médico as pessoas não entendem quanto tempo passo sozinha esperando o fim de plantões intermináveis. Quando se admiram da minha sanidade mental não imaginam o inferno pelo qual eu já passei na vida. E se eu virar uma roteirista foda com vários prêmios no currículo dando entrevista no Jô ninguém vai lembrar os programas de gosto duvidável nos quais eu já trabalhei. Ok, a vida é assim. Mas é assim pra todo mundo, então pra quê ficar reclamando?

Vá à luta!

(ou va fa napoli)

Feliz Natal

Nesta época do ano meus avós sempre repetiam seus mesmos rituais.

Minha avó comprava um monte de panetone e embrulhava com capricho, como se fossem os presentes mais caros do mundo. Depois saía distribuindo a cada visita, tanto para os parentes e amigos quanto para o porteiro, a enfermeira do hospital e por aí vai.

Já meu avô nesta época estava ocupadíssimo com a tarefa, a cada ano mais árdua, de mandar cartões de Natal. Ele comprava um monte de cartões e papel de seda. Cortava o papel, colava dentro do cartão e escrevia mensagens em japonês, usando o alfabeto de kanjis. No ocidente esta bela caligrafia se tornou uma ótima desculpa pra fazer tatuagem mas no Japão é considerada uma verdadeira arte milenar. Meu avô gostava de acordar bem cedo pra fazer isso e tinha que fazer antes de fumar, assim as mãos tremiam menos.

Meus avós todo ano se entregavam aos seus rituais, espalhando carinho e dedicação por aí, com os gestos  mais simples que eles bem sabiam, eram os mais preciosos que poderiam existir.

Feliz  Natal!!!

Dublador

O pai do Antunes era o dublador oficial do Sylvester Stallone. Quando faleceu até saiu uma notinha no jornal. Ele dera voz brasileira à maioria dos machões do cinema americano como Burt Reynolds, Steven Seagal, Christopher Reeves… mas era lembrado mesmo pela voz do Stallone.

Seu cotidiano nada tinha a ver com os soldados revoltados, lutadores em busca de glória ou caçadores de kickboxers das telonas. Cuidava da voz como um bem precioso, evitava bebedeiras, não gostava da madrugada e nunca tomava chuva. Em casa estocava potes de mel e não admitia que falassem alto demais perto dele. Poderia danificar os tímpanos. 

Era muito culto, lia James Joyce, encomendava DVD´s raros do cineasta Alain Resnais e exigia dos filhos as maiores notas na escola. Quando se deparava com uma nota baixa no boletim, não dava bronca, e sim, debochava da falta de perspicácia da criança. Pode-se dizer que foi com essa técnica que ele fez Antunes se tornar um intelectual-acadêmico-mestre-doutor-pesquisador.  

Seu pai morreu há mais de 15 anos, mas ainda hoje, Antunes se pega olhando pra tv com lágrimas nos olhos quando por acaso se depara com uma reprise de algum filme do Sylvester Stallone. “A memória auditiva é uma coisa poderosa”, pensa. Mas no fundo, ele só queria que o pai tivesse sido mais parecido com o Rocky Balboa.

Mesmo assim

Ele tem o hábito repugnante de fumar no banheiro. Tira um cigarro, fuma, molha a ponta na água da torneira e deixa a bituca num cinzeiro que não sai de cima da pia. São várias bitucas nojentas acumuladas até finalmente a faxineira limpar o cinzeiro. Quando lavo meu rosto com a minha espuma importada comprada no freeshop sinto aquele aroma de tabaco úmido subir pela minha garganta e impregnar meus poros.

Mas eu o amo mesmo assim.

A grande viagem – Parte 2

Parte 1

Carlinhos achou engraçado ver o pai dormindo numa cama de solteiro, afinal, cama de adulto é cama de casal. Quando ele acordou, Carlinhos fingiu que ainda dormia mas logo ouviu uma voz carinhosa a sussurrar.

“Carlinhos, acorda… nós temos muita coisa pra fazer hoje”.

O menino abriu os olhos devagarinho e improvisou um bocejo bem falso.

Meio atrapalhado, o pai se viu pela primeira vez sem a assistência da esposa nestes assuntos matinais e  não sabia o que fazer primeiro.

“Tá com fome meu filho? Vamos descer pro restaurante e tomar aquele café da manhã! Põe o tênis. Não, primeiro vamos colocar uma roupa. Que camiseta você quer usar? Ah, mas você ainda não escovou o dente, vamos escovar os dentes.”

Por fim, checou o filho dos pés a cabeça: cabelo penteado, roupa limpa, cadarços amarrados.

“Vamos, Carlinhos?”

“Mas pai, você vai de cueca?”

Ele deu uma risada profunda, daquelas que só dava quando o filho mais velho, Juca, aprontava uma das suas. Na ansiedade de deixar Carlinhos pronto, esquecera de se arrumar. O rosto do menino se iluminou. Não era todo dia que se provocava o riso de um grande comediante.

Sem a concorrência bárbara existente numa casa com cinco irmãos, Carlinhos pode pela primeira vez, experimentar vários privilégios. Apertou sozinho o botão no elevador. Comeu apenas o que tinha vontade de comer. A pedido do pai escolheu qual carro alugariam naquele dia. Carlinhos escolheu um amarelo.

Eram enfim, dois solteiros prontos pra curtir a Disney. Foram 15 dias descobrindo os mais fantásticos brinquedos, nadando no parque aquático, admirando os pulos dos golfinhos, abraçando o Mickey e sua turma… Mas principalmente, 15 dias inteiros em que Carlinhos passou de mãos dadas com seu pai.

E que mudança esses dias provocaram! Depois de tanto gritar de emoção no barco viking, Carlinhos passou a falar alto, impostar a voz, cada palavra sua fluindo claramente. Depois de admirar a queima de fogos no castelo da Cinderella, Carlinhos se sentiu leve: não existia problema no mundo que um show tão bonito não pudesse levar embora. Finalmente na maior  montanha russa da Disney, ao lado de seu pai, Carlinhos não teve dúvidas e levantou os braços sem medo na hora que o trem passou pelo looping.  Admirado, o pai percebeu que o menino estava pronto pra encarar a vida de frente. A partir dessa viagem, Carlinhos mudou completamente: passou a se sentir importante.

Agradecimento

Mariana Blues de Márcio Yonamine

Eu abri este blog só pra colocar meus textos, nada de contar como foi meu dia ou reclamar da vida mas pelo menos este agradecimento preciso fazer.

Ontem chegou um presente super especial pelo correio, este livro aí de cima, Mariana Blues, do Márcio Yonamine.

Nos conhecemos na ECA quando eu estudava Audiovisual. Ele é o mentor do zine Amorosa Cia Pneumática (pra quem não viu, clique aqui), aliás, ele é mentor de muitas coisas, está sempre inventando novos projetos divertidos.

Adorei, é pra ler sorrindo!

Segue o blog dele, A Casa Invisível.

A grande viagem


O pai de Carlinhos era um grande comediante, mas Carlinhos, era uma criança triste.

A mãe, era uma modelo famosa, mas Carlinhos não era bonito.

Tinha quatro irmãos, dois mais velhos e dois mais novos. Juca era o engraçado, Marcelo era o peralta, Júlio era o bonito e Marcos era o inteligente. Carlinhos não era nada.

O pai fazia piadas, palhaçadas e de tudo brincava. Deu a ele um carrinho, um pônei, um walkman da sony. Pôs na aula de teatro, desenho, caratê… pra quê? Nada de Carlinhos se animar.

Até que um dia o pai veio com um papo diferente.

“Carlinhos, nós vamos fazer uma grande viagem. Só você e eu.”

“Carlinhos, falta uma semana pra nossa viagem. Nós vamos ficar 15 dias na Disneylândia.”

“E a sua mala, Carlinhos? Faz calor na Flórida, onde estão suas bermudas?”

Finalmente o grande dia chegou. Eles acordaram bem cedo, mais cedo do que a hora de ir pra escola. Enquanto os irmãos vestiam seus uniformes resmungando, a mãe de Carlinhos escolheu pra ele uma roupa bem colorida.

No saguão do aeroporto, Carlinhos só conseguia ver pernas de adultos bem compridas, passando pra lá e pra cá. Segurava a mão do pai com força, temendo se perder naquele mar de pernas sem rosto.

Aconteceu ainda na fila do check in. Depois de rodeá-lo como quem não quer nada, uma senhora de idade se aproximou com a filha que trazia a câmera fotográfica já em punho. Tinha os olhos arregalados e um sorriso bobo no rosto. Assim que o cumprimentou pelo nome já se colocou ao seu lado, pedindo pra bater a foto. O flash chamou a atenção dos presentes e de repente todos sabiam que o grande comediante estava lá. Vieram então umas moças mais novas, um grupinho de crianças e até os funcionários da companhia aérea que mesmo acostumados com a presença de artistas no aeroporto,  quiseram autógrafos. Todos chamavam a atenção do pai de Carlinhos e o garoto sumia, encolhido ao lado da bagagem.

continua…

Xadrez na Santa Cecília

No Largo da Santa Cecília há uma praça feia, bem na boca do metrô. Por lá circula de tudo: camelô, carrinho de hot dog,  estudante do mackenzie, médico da santa casa.

O que sempre me chama a atenção, destoantes, são os tabuleiros de damas. São duas mesas grudadas no chão, acompanhadas de banquinhos de concreto. As pedras não são pedras, são tampinhas de garrafa.

Os idosos que se reunem alí passam horas exercitando suas estratégias, munidos apenas de suas boinas e bengalas.

Em meio a travestis, alcóolatras e cachorrros abandonados eles inventam duelos, rezam pela sorte e vencem batalhas.

Bem alí, onde os mendigos já perderam a lucidez, a inteligência destes nobres senhores resiste.

Blogueiras

Os blogs andam com nomes cada vez mais criativos, só ficam atrás dos nomes de esmalte. Pensando nisso bolei uma brincadeirinha boba com todos os nomes de blogs (ou quase todos porque leio blogs compulsivamente) que acompanhei bastante este ano.

Querido Leitor,

Hoje vou assim usando um vestido carmim

conferir se Vende na farmácia

coisas que muito eu desejo:

blush, rímel e pão de queijo.

Fecho o superziper da calça e saio decidida,

mas perdi o fio da meada antes da saída

Não sei o que aconteceu,

nem que bicho me mordeu

mas esqueci os planos do dia de beauté

pois de repente pude perceber:

 Tô com Fome!

Fiz um sanduíche de ricota mas esquece,

essa Ricota não derrete

será que sobrou algum Petisco favorito

pra domar meus estômago arisco?

Se não sobrou, por favor, anote: o email do The Cookie Shop.

Divas – Inezita Barroso

Inezita Barroso, a diva

Inezita Barroso, a diva

Vocês vão achar que é brincadeira, mas eu realmente acho que a Inezita Barroso é uma diva!

Até 2004 passei minha vida ignorando sua existência mas tudo mudou quando fiz meu primeiro estágio na TV Cultura. Confesso que fiquei decepcionada ao saber que eu havia sido designada pra trabalhar no Viola, Minha Viola, programa de música caipira que tem um ano a mais de existência que eu! Este ano completou 29 anos no ar.

Nada daquilo tinha a ver comigo: não sabia qual era a diferença entre música raiz e sertaneja, não podia conter a risada com cada nome esdrúxulo de duplas que eu ouvia e meu diretor então, com seu fétido fumo de corda, era um caso a parte.

Mas eis que eu conheci a diva e aos poucos meus preconceitos foram por água abaixo. Lembro dela cantando no palco, com seus cílios postiços enormes e batom vermelho, soltando aquela voz retumbante que num instante, sabia se recolher e emocionar. As mãos octagenárias surpreendiam pela força que imprimiam em cada gesto. E os velhinhos humildes que sozinhos atravessavam a cidade inteira para vê-la choravam de verdade, lembrando de algum tempo antigo em que foram felizes. Você já viu 100 velhinhos juntos chorando ao mesmo tempo? Não é um feito para se respeitar?

Inezita gata na juventude

Inezita não nasceu no campo, ao contrário, foi criada numa família aristocrática da Barra Funda, dona de muitas fazendas de café. Desde criança estudou violão, viola e piano. Além de ser cantora, atriz e apresentadora, ela também se formou em Biblioteconomia na USP e em meio aos livros sobre folclore, se apaixonou ainda mais pela cultura popular do Brasil. Inezita em si é uma biblioteca, conhece todas as músicas de raiz e sabe quem são seus autores de cor.

Eu sempre recebia cartinhas na produção com perguntas sobre músicas antigas, ou melhor, fragmentos de canções escritas em linhas bem tortas. Inezita sempre matava a charada na hora, cantava a música toda e contava a história de sua composição. E lá ia eu toda feliz, responder a cartinha com informações que nem o Google seria capaz de encontrar.

Não é a toa que com sua memória de elefante, Inezita até hoje dá aulas de folclore em duas faculdade de turismo. Além disso ela grava toda semana um programa de rádio e o programa de tv. No ano em que eu estava lá ela desfilou por duas escolas de samba, uma delas, a Gaviões da Fiel (Inezita é corintiana convicta). Que energia!
Como toda diva deve ser, na minha opinião, Inezita também tinha um apetite voraz, adorava pizza de queijo e não dispensava a marvada pinga. Em tudo eu admiro Inezita, tanto a figura pública quanto a privada que tive o privilégio de conhecer e conviver, pelo menos por 6 meses. Os meses em que aprendi o que era televisão.

Quando comecei a gostar de bailarinas?

Na minha infância eu odiava bailarinas. Aliás, odiava ser criança e queria crescer logo pra ser dona do meu nariz. Achava falsa aquela delicadeza toda e a rigidez dos gestos parecia fruto de uma disciplina chata e sem fim. Eu que nem roupa branca podia usar pois sujava tudo num segundo nunca tive aquele sonho de vestir o tutu e a sapatilha de cetim. Achava tudo rosa demais. Eu não penteava o cabelo, não usava saia nem vestido e odiava comprar roupas. Basicamente eu tomava banho e escovava os dentes.

Do alto dos meus quase 30 anos, tudo mudou. Outro dia entrei num Mc Donalds e vi duas garotinhas na fila com roupinhas de princesa e sapatilhas nos pés. Tinham os cabelos bem presos e cheios de gel com glitter. Cada uma usava um vestidinho diferente mas os dois com saias bem rodadas, armadas pelo tule. De mãos dadas, elas relembravam saltitantes cada passo da coreografia que pelo jeito havia sido um sucesso. Achei uma graça. Porque afinal bailarinas são graciosas, ainda mais assim, tão felizes de seus feitos. Da perna que esticou até aonde precisava ir. Do ombro que se manteve na postura certa. Dos pulinhos certos na hora exata e sei lá mais o quê. Imagino que sendo tão pequenas as garotas devem ter feito tudo meio errado, sem equilíbrio, olhando de canto pra professora. E mesmo assim (talvez até por isso mesmo) deve ter sido uma graça.

Quando comecei a gostar de bailarinas?
Acho que foi quando percebi que tinha virado adulta. Quando comecei a gastar mais de 20 minutos pra escolher minha roupa de manhã. Quando comecei a usar maquiagem pra não ficar com cara de doente. E claro, ao perceber que a rotina do adulto é a coisa mais chata do mundo. Minha saudade de ser menina é que me faz sorrir ao ver essas garotinhas. Fantasiadas de princesas, imaginando um mundo cor de rosa onde sempre haverá um palco pra elas subirem e serem aplaudidas.

Mais amorosa

Eu sei quem é o admirador secreto, mas ainda não contei pra ninguém.

Mais uma página do zine Amorosa Cia Pneumática.  Lembro que essa foto eu recortei da revista Veja.Ela ilustrava uma reportagem sobre uma nova tendência entre os jovens europeus, a preferência pela qualidade de vida em detrimento de carreiras meteóricas. Muitos deles estavam preferindo um estilo de vida mais tranquilo, de pequenos prazeres e horários flexíveis e assim, fazendo menos cursos de pós-graduação por exemplo. Realmente, se você não vive em situação de miséria e os serviços públicos do país são bons, é melhor desencanar e curtir a vida, não?