Presente de 50 anos

Acordou com aquilo na cabeça, foi cozinhando durante o dia e na saída do trabalho estava decidida.  Não contou para ninguém.

Desceu do ônibus dois pontos antes do que costumava, bem pertinho da farmácia pela qual passava todo dia. Entrou e perguntou pro mocinho do balcão se tinha o que ela queria. Tinha. Lá no fundo, meio escondido agora, por causa das novas leis.    

Sentou num banco branco forrado de plástico transparente que fazia um barulho irritante quando ela se movia. Um rapaz cheio de piercings, franja alisada com chapinha e um pouco de lápis preto nos olhos chegou logo depois e sentou ao seu lado. Ela tinha visto na televisão, era um emo.

O farmacêutico apareceu com a pistola de ar e perguntou se ela estava pronta. Como não sabia, respondeu com um sorriso nervoso:  

-Nunca tive a orelha furada. Será que dói?

O emo logo foi se adiantando: Não dói nada, tia. O que dói é esse aqui. E mostrou a língua varada com um piercing enorme.

Ela pôs a mão na boca e sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Ele segurou a mão dela. Com prática, o farmacêutico posicionou a pistola na orelha e atirou.  Não doeu nada. 

No dia em que fez 50 anos, ela se deu de presente um pouco de coragem.

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